Resenha – O impulso
por Patricia
em 28/12/20

Nota:

No final de novembro, participei de um evento da Paralela, selo da Companhia das Letras, em que anunciaram o lançamento de um livro que era uma enorme promessa no cenário literário mundial. Curiosa, mas cética, entrei no evento para ouvir sobre “O impulso”, estreia da autora Ashley Audrain que havia sido vendido para quase 30 países antes mesmo de sua publicação e que também já recebeu ofertas para uma adaptação para as telas.

O livro chegou pouco tempo depois e me dediquei a ele em um fim de semana. 48 horas intensas em que acordei às 6am do sábado e fui dormir às 2am do domingo quase sem parar de ler.

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A história é narrada por Blythe que, após acontecimentos dramáticos na vida, começa a avaliar todas as decisões que a levaram a esse momento: sentada em um carro na frente da casa que o ex-marido agora divide com a nova esposa, encarando sua filha pela janela.

Blythe e Fox tiveram uma relacionamento feliz e mal podiam esperar para começar uma família. Ele, pelo menos. Logo chegou Violet, uma menina difícil que exigiu muito da mãe nos primeiros meses. Mãe de primeira viagem, Blythe não sabe como agir com a filha e o vínculo entre as duas parece frágil, quase inexistente. Mas Fox acredita que é só uma questão de se adequar. Talvez Blythe precise dormir um pouco mais?

À medida que os anos passam, Blythe fica cada vez mais desesperada por sua desconexão com a filha e começa a perceber alguns comportamentos estranhos na menina. Elas parecem apenas se tolerar e isso fica claro quando Blythe ouve Violet dizer ao pai com todas as letras que a odeia. A resposta dele é “bom, ela é sua mãe.”

Blythe entra em um espiral de questionamentos sobre sua capacidade como mãe, duvidando de todas as suas decisões. Ela queria se tornar escritora, mas abriu mão da carreira quando a filha nasceu e se culpa pelo ressentimento que sente.

Há flashbacks que vão nos dar mais clareza sobre a ideia que Blythe tem de maternidade. Sua mãe, Cecília, saiu de casa quando ela mal tinha 10 anos e, antes disso, sua avó, Etta, também não foi uma mãe exemplar. Três gerações de mulheres marcadas por uma maternidade incompleta para os padrões sociais. Afinal, o que todas ouviam é que tudo valia a pena ao ver seus filhos e nenhuma delas sente isso.

Há diferentes níveis de trauma transmitidos de geração a geração até culminar em uma menina que vai tomar decisões drásticas para chamar a atenção e punir sua mãe por sua inabilidade materna. A batalha entre mães e filhas e a alienação dos homens nessa batalha é monumental. A construção de Audrain é certeira, fazendo com que o leitor compreenda e descenda ao abismo junto com Blythe. Sua dor é paupável e seu isolamento é claro.

Fox é um marido exemplar até Blythe deixar de ser a imagem perfeita de esposa e mãe que ele esperava. Quando as coisas começam a dar errado, ele se torna a personificação do gaslighting – tratando as preocupações de Blythe como besteira minimizando questões que ela via como sérias e evitando discutir o que lhe era inconveniente. Se ele tinha uma ótima relação com a filha, por que a mãe não poderia?

Em grande parte, a obra me lembrou uma outra mãe trágica da ficção, Eva Katchadourian, de Precisamos falar sobre o Kevin, que também tem uma relação tumultuosa com um filho indomável que decide cometer atos terríveis para puni-la por algo incompreendido por todas as partes, mas muito claro em suas consequências.

“O impulso” tem cenas bem construídas e bem exploradas. Um livro de leitura rápida e frenética enquanto o leitor, como Blythe, tenta sair do pesadelo que sua vida se tornou.

Definitivamente, uma estréia poderosa.

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O livro foi enviado pela editora.

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1 Comentário em “Resenha – O impulso”


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Andrea Bidlovski em 27.02.2021 às 05:44 Responder

Nossa, me deu um pouco de aflição como é parecido com Precisamos Falar Sobre Kevin. E mais, só vc comentou. Procurei em várias resenhas…

bjos


 

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