Resenha – O inferno dos outros
por Bruno Lisboa
em 11/10/16

Nota:

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No documentário Misery loves comedy (ainda inédito no Brasil) o diretor Kevin Pollak conversa com mestres do gênero comédia e problematiza o que os motivaram seguir a carreira. E a reposta para a maioria dos casos circundava o mesmo tema: o sofrimento. De fato é estranho pensar que justamente o sentimento oposto a alegria sirva de combustível dos gênios desta seara, mas é justamente assim que acontece. E talvez a melhor maneira de visualizar este fenômeno é a leitura de O inferno dos outros .

O livro de David Grossman, celebrado e prolífico autor israelense (responsável por livros como Garoto Zigue-Zague e O livro da gramática interior, ambos lançado pela Companhia das Letras), é uma rápida e mordaz narrativa que tem como personagem central Dovale, um comediante de stand-up que se apresenta para um pequeno público na decadente cidade de Netanya, Israel.

Fugindo do tradicional formato criado por piadas subsequentes e de curta duração, Dovale faz de seu número uma afronta ao público, pois opta por fazer do mesmo um autêntico resgaste de toda a sua decadente vida até então dominada por inúmeros fracassos pessoais ligados ao bullying, casamentos mal sucedidos e a morte.

Dividida entre flashbacks e o tempo presente, a história tem como cerne o passado do protagonista e a apresentação em si. Quando a história volta aos primórdios surge a figura do coadjuvante Avishai, um juiz aposentado que conviveu com Dovale durante a infância, mas não o via desde então e está assistindo a apresentação a convite do comediante.

A medida em que o público assiste a longa e provocativa apresentação, Dovale tenta utilizar de todo seu carisma e domínio de palco para fazer da mesma um ritual de purificação de sua conturbada vida. Sem devaneios ele externa, entre uma piada e outra, suas reflexões ligadas não só a sua profissão, mas também ao ser humano e sua conturbada vida. A lavação de “roupa suja” ao vivo acaba por não agradar grande parte do espectador que o hostiliza, mesmo com o caráter emocional que o número ganha. Alheio a isso o performer se arrisca e vai até o fim de sua longa jornada em prol de seu maior objetivo: contar sua própria história.

Por mais distante que possa parecer (já que a obra trabalhe em parte com valores culturais israelenses), em O inferno dos outros David Grossman consegue dizer de forma clara que a dor da existência traz em si algo que é de caráter universal. E vai além ao pontuar como, por muitas vezes, somos egoístas ao ignoramos o sofrimento do outro. E, principalmente, a grande lição deixada é que a superação é parte inerente a vida que deve sempre seguir em frente.

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O livro foi enviado pela editora.

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