Resenha – O jornalista e o assassino
por Patricia
em 17/06/13

Nota:

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Na década de 70 um assassinato assusta os Estados Unidos – Colette MacDonald de 26 anos e suas duas filhas – Kimberley (5) e Kristen (2) – foram brutalmente assassinadas a pauladas e facadas. O marido, um médico militar, se torna o principal suspeito por ter sido poupado com apenas ferimentos leves, mas no julgamento militar é considerado inocente. O problema é que os promotores não aceitaram o resultado e montaram um caso civil contra o Dr. MacDonald.

Apesar de ser um médico de razoável sucesso, MacDonald não é um homem rico e suas finanças começam a se esgotar. Ele corre o risco de não poder pagar por uma defesa particular e começa a procurar opções.

Do outro lado da história, temos Joe McGinniss, um jornalista que aos 26 anos escreveu um livro de muito sucesso sobre os bastidores da campanha que elegeu Nixon presidente. Porém, depois disso não conseguiu sucesso com seus romances. No limbo de sua carreira, Joe está buscando novos projetos.

É aqui que a história desses dois se cruzam – o advogado de MacDonald convida McGinniss para escrever um livro sobre a estratégia de defesa do Dr. Infiltrado na equipe de defesa, McGinniss teria acesso a tudo o que seria debatido, definido e apresentado antes de acontecer. O que mais um jornalista poderia querer?

Aos poucos, Janet vai dissecando os verdadeiros motivos para cada um deles se envolver nesse projeto e começamos a entender as bases do debate sobre ética e calúnia. MacDonald precisava de ajuda com os custos que envolviam a sua defesa e Joe precisava pagar dívidas acumuladas. Ao invés de se tornarem objeto de estudo e observador, respectivamente, eles se tornam sócios. Nesse momento, a linha entre o que é certo e errado começa a ficar embaçada.

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Um outro ponto que selou o destino de ambos é que, por mais que Joe desse a entender que acreditava na inocência de MacDonald, seu livro atacou-o deixando claro que, no fundo, Joe o julgava culpado e um monstro. Claro, um livro sobre um assassino maluco que matou a esposa e as 2 filhas venderia bem, bem mais do que um livro sobre um homem comum tentando provar uma inocência que já havia sido julgada pela população como falsa. Será que Joe vendeu sua alma para conseguir um best-seller? Quando o livro é lançado – e se torna um sucesso de vendas – MacDonald se sente traído e processa Joe por calúnia e fraude.

O livro de Janet refaz os passos cruciais da pesquisa de Joe e a autora faz questão de falar com todos os envolvidos no julgamento levantando questões importantes e pertinentes a ambos os lados. Temos uma visão quase completa do contexto do livro que Joe escreveu e de seus motivos para tal.

Um jornalista enfrenta diversos dilemas éticos, em qualquer história. Quase sempre, a história tem dois lados mas nem sempre é possível abordar ambos da mesma maneira ou com o mesmo ímpeto. Mas a questão aqui vai um pouco além da ética jornalística. Alguns interesses pessoais de ambos entrem em cena afetando tanto o relacionamento dos dois quanto o conteúdo do que foi criado.

De maneira nenhuma o livro de Janet pretende revisar o julgamento ou a condenação de MacDonald (ele recebeu três penas de prisão perpétua consecutivas e a projeção para sua liberação é 2071 – quando ele teria 128 anos – ele tinha 36 quando foi condenado). Janet tenta apenas nos guiar no emaranhado de informações contraditórias que o McGinniss utilizou para dar ao público o que este queria.

O livro é realmente bem escrito – nota-se imediatamente o domínio de Janet sobre as palavras como boa jornalista – e sua posição é colocada como conclusão razoável mas não definitiva, ou seja, ela faz o que os jornalistas devem fazer – nos informar e nos guiar pelo labirinto da notícia e ainda que tenham uma posição, deixam isso para o leitor decidir.

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