Resenha – O Leopardo
por Patricia
em 05/12/12

Nota:

Hora do clássico. Adianto que essa resenha não será curta ou simples. Para compreender alguns clássicos, é sempre importante começar entendendo o contexto da história – que muitas vezes ajuda a compreender o que não é dito. Nesse caso específico, se você ler O Leopardo sem entender bem de onde surgiu a idéia, talvez acredite que seja apenas um livro sobre um rei em decadência quando, na verdade, é muito mais do que isso.

O contexto

O Leopardo foi publicado em 1959, dois anos depois de Lampedusa falecer. O livro se passa na época do Resorgimento Italiano – processo de unificação do país que começou por volta de 1860 culminando, em 1946, na abolição dos privilégios nobres resultando na República da Itália. Na época, o país era dividido em cidades-estados que disputavam o poder entre si e eram disputadas por potências estrangeiras. Era necessário criar uma consciência nacional, um guia para que os italiano se tornassem uma Nação. E, é claro, isso não seria fácil. Quem conhece um Rei que quer abrir mão de seu poder?

Começou, então, uma mudança social profunda. A Itália foi o centro do Império Romano e chegou a ser o ápice de poder de uma parte da História do mundo, deixando em suas raízes uma nobreza que foi, aos poucos, perdendo a relevância. Na época do Resorgimento, a Itália tinha tanto nobre que era difícil manter a linha de raciocínio (cada cidade tinha seu Príncipe).

A burguesia italiana enriquecia cada vez mais com o endividamento dos Príncipes mas não tinha nenhum real poder político. Entra em cena Giuseppe Garibaldi – líder da Legião Italiana (recém chegado da luta na nossa Revolução Farroupilha). Seguindo os ideais da Revolução Francesa – Liberdade, Igualdade e Fraternidade – Garibaldi representou uma chance para a burguesia assumir o poder de vez transformando a Itália no país que conhecemos hoje, pelo menos geograficamente.

E agora, bora para o livro…

O Leopardo conta a história de Dom Fabrizio, um nobre que começa a perceber as mudanças na sociedade e a notar a futilidade de sua vida. Ele é o Príncipe de Salinas – região da Sicília. Tem uma família que mal vê, sete filhos que mais o incomodam do que outra coisa e uma mulher que ele acha que ama mas de quem não consegue chegar perto e, por isso, visita uma…”amiga da noite” em Palermo de vez em quando.

Dom Fabrizio tem seu Padre particular que mora em seu palácio para lhe expurgar os pecados antes mesmo do pedido de perdão. Ele chega até a levar o Padre em suas escapadas para disfarçar suas intenções. Aqui há uma crítica muito interessante à relação nobres X Igreja. Qual é a moralidade que uma Igreja pode ter se é obrigada a perdoar tudo o que a realeza faz? Como pode um Padre servir a um nobre? Lembrando que, nessa época, os Papas eram escolhidos pela nobreza italiana e muitos eram parte das famílias que o escolhiam.

Quando suas despesas começam a pesar, Dom Fabrizio é obrigado a contemplar a idéia de vender algum terreno ou algum palácio. Ele parece resignado com a situação. Aliás, ao perceber que sua situação não tem remédio, ele começa a tratar seus súditos de maneira bem diferente. É o velho dito maquiavélico “é melhor ser temido ou ser amado?” Infelizmente para Fabrizio, ele não era mais nem uma coisa, nem outra. Seu reinado – que já não era lá muito fantástico – chegava inevitavelmente ao fim.

O Leopardo era como Dom Fabrizio se descrevia – forte e dono do espaço (e como a nobreza no geral se enxergava). Mas isso estava para mudar e a revolução galopava a passos largos. Quando há um plebiscito na cidade  para saber como o povo vê a revolução:  os votos à favor são unânimes. Nascia uma nova Itália que – pelos próximos 70 anos enfrentaria uma nobreza que, para colocar em palavras simples, não queria largar o osso.

A situação de Dom Fabrizio fica ainda mais delicada quando seu sobrinho Tancredi (que lutou A FAVOR da Revolução) decide que quer casar-se com a filha de um dos burgueses ricos da cidade, Angélica. Ao arranjar o casamento, Dom Fabrizio percebe que o pai da noiva dará ao casal um dote impressionante e muito acima do que ele poderia sonhar. A humilhação é palpável. Mas não deixa de ser uma manobra inteligente – casar seu sobrinho com a filha de um dos burgueses mais ricos da região pode garantir uma sobrevida à aristocracia de Salinas.

Por fim, a Sicília é “integrada” a Sardenha e o cargo de Senador é oferecido a Dom Fabrizio que o recusa com um discurso impressionantemente realista de seu povo encerrado com “Os sicilianos nunca vão querer melhorar pela simples razão de se considerarem perfeitos: sua vaidade é mais forte que sua miséria.” Assim, ele fica onde está. Um príncipe em fim de carreira.

Apesar de ser um clássico, no melhor sentido da palavra, O Leopardo é um livro fácil de ler. Tem um nível de português razoável e, certamente, será preciso um empenho maior do que para ler apenas um livro de literatura jovem, por exemplo. Ainda assim, a compreensão do texto é fácil.

A história é dividida em partes e o livro é coeso na divisão e isso ajuda o leitor a conseguir dar pausas quando precisa pensar sobre algumas passagens. Ao pesquisar mais sobre o autor, descobri que quase nada é ficção nesse livro – Lampedusa era Giuseppe Tomasi,  filho do príncipe de Lampedusa e quando seu pai morreu em 1934, tornou-se o Princípe oficial da região. Mas apesar de ainda manter um certo status e um terreno agrícola razoável, o prestígio de sua nomeação já não era mais significativo.

Em 1943, no auge da 2a Guerra Mundial, seu palácio é destruído por uma bomba reforçando a sensação de “fim” da aristocracia. Lampedusa não parece ter sido um nobre encantado com sua nobreza. Esse sentimento é traduzido no livro com leveza e ironia. As descrições de autor são deslumbrantes.

O Leopardo é irreverente, sarcástico até e lindamente escrito. Deveria ser leitura obrigatória nas aulas de História européia e, com certeza, vale cada exercício mental que nos leva a fazer.

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6 Comentários em “Resenha – O Leopardo”


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marcelo flora stockler em 14.09.2014 às 21:27 Responder

gostei muito do resumo, pois focalizou diretamente o objetivo do autor e de uma maneira muito clara.

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Paty em 14.09.2014 às 21:37 Responder

Opa Marcelo, Obrigada. 🙂

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Rodrigo c C Goes em 11.07.2017 às 10:00 Responder

Obrigado pelo resumo. Muito útil.

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Rafael em 06.10.2019 às 08:46 Responder

Esse resumo foi perfeito. Li o livro tem uns 3 anos e queria refrescar a memória. Esse texto foi perfeito.

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Patricia em 06.10.2019 às 17:07 Responder

Que bom que vc gostou! =D Livraço!

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sylvia regina muniz de andrade em 14.05.2020 às 15:00 Responder

Sempre muito atual quando se trata de preocupações sempre presentes no caminhar da humanidade. Lampedusa enxergava o “invisível”, aquilo que as pessoas evitavam enxergar, questionar a vida social e pessoal. Seu êxito foi alertar que sempre existe luz no fim do túnel.


 

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