Resenha – O livro do disco
por Bruno Lisboa
em 17/03/15

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Desde 2003 a editora britânica Bloomsburry, sob a coordenação de David Barker e edição por Ally Jane Grossan, compila a série 33 1/3 (título em ode às rotações de um disco de vinil). Seu mote central é trazer à tona uma série livros que analisam minuciosamente discos históricos da música mundial, sob os mais variados gêneros.

Se lá fora foram lançadas 103 edições, por aqui, após 12 longos anos de espera, finalmente é chegada à primeira leva de traduções. Neste lote inicial Endtroducing, do DJ Shadow, The Velvet and Nico, do Velvet Undergroung, Daydream Nation, do Sonic Youth, fazem par com a primeira leva de obras nacionais (Tábua de esmeralda, de Jorge Ben; Lado B Lado A, do Rappa e Estudando o samba, do Tom Zé), criadas especialmente para o público brasileiro.

Dos títulos lançados, o primeiro livro da série a ser avaliado aqui no Poderoso é Daydream nation. Escrito por Matthew Stearns, em sua primeira empreitada pelo universo da escrita. O livro é uma imersão profunda nas referências do icônico disco dos nova-iorquinos. Prensado como vinil duplo na época, o álbum representou o ápice criativo da banda, traduzindo toda a ousadia sonora já alardeada desde o seu primeiro rebento, o EP Sonic Youth. 

Composto por 12 faixas,  foi com Daydream que banda composta pelo quarteto Kim Gordon, Thurston Moore, Lee Ranaldo e Steve Shelley conseguiu equacionar e dialogar todo o caldeirão de influências externas seja da efervescente cena indie que proliferava pelo EUA (se você ainda não leu obrigatório Our band could be your life, de Michael Azerrad, fica a dica), a arte contemporânea ou a velha guarda musical, alicerçada por mestres como Bob Dylan, Neil Young e Joni Mitchell.

Partindo da premissa de como Nova York era naquele período, o autor analisa como a cidade foi influência direta para o panorama conceitual adotado no álbum. Em texto marcado pela pessoalidade, Stearns segue transitando entre a linguagem técnica e a literária, transbordando paixão no seu olhar obcecado e aprofundado para cada detalhe do disco oscilando entre as longas canções e pela concepção da arte do disco.

Completando e compactuando as observações perpetuadas pelo autor, surgem entrevistas concedidas por todos os integrantes mais o produtor do disco (Nick Sansano). As afirmações conjuntas enriquecem ainda mais o contexto geral, apresentando como fora o complicado processo de gravação.

Clássico atemporal, Daydream segue até hoje como o disco mais influente da banda. Para muitos o melhor da década. De certa forma, o mesmo fora um dos responsáveis por despertar o interesse do grande público (ao lado de Zen Arcade do Husker Du e Double Nickels on the dime do Minutemen, ambos parceiros do SST records)  para o que acontecia  no cenário independente americano que, anos mais tarde, atingiria o mainstream com o boom da cena de Seattle.

Após colher os louros da criatividade em estado bruto, para os anos 90 o Sonic Youth renasceria num formato mais palatável, resultando nos também clássicos como Goo (1990) Dirty (1992). Mas isto é assunto para posteridade.

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