Resenha – O ministério da verdade
por Patricia
em 17/12/21

Nota:

Poucos livros se mantiveram relevantes décadas depois de seus lançamentos como “1984” de George Orwell. Desde a virada de algumas das maiores democracias do mundo à direita em eleições recentes, o livro tem aparecido consistentemente na lista de mais vendidos mesmo mais de 70 anos de seu lançamento.

No caso de uma obra tão esmiuçada quanto a de Orwell, é inevitável que a vida do autor se misture à de suas obras e personagens. No caso de Orwell, seus livros eram como extensões de sua ideologia e experiências de vida. É exatamente essa ligação que o jornalista britânico Dorian Lynskey tenta desvendar.

Lynskey monta o cenário criador do Orwell que escreveu “1984”: seu constante interesse em política, a busca por entender o que motiva revoluções, o nervo rebelde que ele cultivava à custa de amigos e uma vontade intensa de entender as causas da opressão e do totalitarismo e como evitá-los.

Além das experiências pessoais, estava o papel da literatura e as influências de nomes como H.G Wells. Principalmente o papel das distopias, que se tornaram tão proeminentes no começo do século XX, enquanto o mundo se preparava para décadas de guerras. Mesmo antes do primeiro tiro, já era possível notar que algo denso se formava no horizonte.

Orwell estava menos interessado nas personalidades de Hitler e Stálin, sobre os quais escreveu surpreendentemente pouco, do que nos motivos que levaram tantas pessoas comuns a seguir esses líderes. Um desses motivos era a degradação da realidade consensual. Ele descreveu como os leitores de jornais, confrontados com uma confusão genuína e uma desonestidade rematada, rendiam-se à ideia de que não havia como determinar a verdade: ‘A incerteza generalizada quanto do que de fato está ocorrendo torna mais fácil a adesão a crenças desatinadas.’ (pág. 209)

Quanto ao fato de que a direita usurpou a mensagem anti-totalitarista de Orwell, ele mesmo teve que elucidar algumas coisas desde o sucesso de “A Revolução dos bichos”. Por ser uma crítica direta ao stalinismo e ao socialismo visto na Rússia, a direita interpretou automaticamente como uma crítica a todo tipo de socialismo e Orwell teve que esclarecer que ele ainda era socialista democrata e não defenderia nenhum tipo de governo totalitário, mesmo os de esquerda. Já com “1984”, até mesmo o título levantou questões e teorias.

Os romances distópicos costumavam ser situados pelo menos um século adiante ou no futuro imediato. Próxima o suficiente de 1949 para ser palpável, mas afastada o bastante para ser crível, a data escolhida por Orwell tinha o mesmo propósito de seu cenário londrino – dizer que tudo aquilo podia acontecer aqui, e logo mais. Com 39 anos no início do romance, Winston sabe que nasceu em 1944 ou 1945, o que faz dele um contemporâneo próximo de Richard Blair, então é possível que Orwell estivesse imaginando um mundo no qual seu filho estaria vivo e no início da meia-idade. Muita coisa pode acontecer em 35 anos. Trinta e cinco anos antes da publicação do romance foi o glorioso verão de 1914. O arquiduque Francisco Fernando ainda vivia, Orwell estava prestes a completar onze anos, e os campos de extermínio e as bombas atômicas eram ficção científica. (pág. 253)

Mais do que mostrar um mundo devastado, Orwell buscava lançar um aviso. É de se esperar que o pessimismo tomasse conta do autor. Em 40 anos, ele viu não uma, mas duas guerras mundiais. Sua própria casa chegou a ser bombardeada, durante um ataque a Londres, e ele teve que tirar o manuscrito de “Revolução dos bichos” das cinzas. O futuro previsto por Orwell pode não ter se concretizado em sua forma completa mas foi tenebroso: entre o lançamento do livro e a data de seu título, o mundo viu a Guerra da Coréia e a do Vietnã, a crise dos mísseis de Cuba e o fortalecimento da Guerra Fria, termo que o próprio Orwell cunhou anos antes.

Lynskey faz um excelente trabalho em contextualizar Orwell em todo seu pessimismo, mas também em todo seu comprometimento na luta anti-totalitarismo. Na 2a parte do livro, Lynskey nos mostra o impacto de “1984” e como a obra conseguiu se manter relevante. Da música ao cinema, de empresas de tecnologia à gigantes políticos, ninguém parece ter passado incólume pela obra de Orwell.

Ao esmiuçar a violência e a política de seus dias, Orwell entreviu um futuro em que o debate se tornaria cada vez mais extremo, sem imaginar que suas próprias obras seriam alvo dessa mesma polarização. Afinal, o totalitarismo está tanto do lado de lá quanto do de cá e quanto antes isso for aceito, antes será combatido. E, no fim, Orwell estava certo.

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O livro foi enviado pela editora.

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