Resenha – O motivo
por Patricia
em 01/06/15

Nota:

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“O motivo” é o primeiro volume da trilogia Mundo em Caos, primeira trilogia do gênero literatura jovem do autor Patrick Ness. No livro, somos apresentados a Todd Hewitt que tem 12 anos e mal pode esperar para fazer 13, quando passará pelo tradicional ritual que o transformará em um homem de verdade. Ele não sabe bem do que consiste esse ritual, mas está cansado de ser o último menino de Prentissburgo. Sem amigos, ele anda pela cidade seguido de seu cachorro falante – Mache.

Prentissburgo não é, porém, uma cidade qualquer. É uma cidade onde só existem homens. Nenhuma mulher é vista por ali há muito, muito tempo. De fato, a história que se conta é que há algum tempo ouve uma guerra com alienígenas e que eles liberaram um tipo de vírus no mundo que matou todas as mulheres. Nos homens, o vírus causou algo ainda mais assustador: permitia que seus pensamentos fossem ouvidos por qualquer um. Chamaram isso de ruído. E as coisas acontecem exatamente como vocês imaginam: tudo o que um homem pensa, qualquer pessoa na cidade pode ouvir ou ver. Até os animais foram afetados e foi assim que Todd ganhou um cachorro falante.

Apesar de achar que Phillip Pullman fez algo muito mais intenso com seus demons em A bússola de ouro, Ness descreve e incorpora o ruído de uma maneira tão simples no enredo que dá para se sentir claustrofóbico com a possibilidade de lidar com tantos pensamentos alheios sem filtro. Alguns homens aprendem a criar ruído a mais a fim de disfarçar seus reais e profundos pensamentos, como uma cortina de fumaça (porque não há nada que as pessoas não possam manipular).

Prentiss é o sobrenome do prefeito – aparentemente vitalício – da cidade. Um homem que exala crueldade e de quem Todd tem medo. Prentiss é um homem ganancioso e sedento de poder – algo que reconhecemos nas descrições de Todd ainda que ele mesmo não perceba essas características. Ele vai descobrir na pele, porém, o quanto de crueldade o mundo pode lhe apresentar quando descobre que precisa fugir dali.

Quando foge com a roupa do corpo e uma mala apenas, Todd não sabe bem o que o espera. Mas, aos poucos, ele vai descobrir que tudo o que aprendeu sobre seu mundo foi uma mentira muito bem elaborada.

“O motivo” tem todos os elementos de uma história vibrante para jovens leitores. Em alguns momentos, ele parece ter mesmo sido escrito por um jovem leitor apesar de Ness ser um homem de quase 40 anos quando escreveu o livro. Quando Todd cai na estrada podemos entender melhor o ambiente do qual ele tenta fugir e conhecemos personagens dos mais terríveis aos mais encantadores.

O enredo é simples: a luta do bem contra o mal, da inocência das crianças contra a crueldade dos homens, da importância da amizade (com pessoas ou animais) contra a ganância e o isolamento do poder e, até mesmo, sobre a importância de não ter medo e não julgar o que é diferente de nós. Há níveis em que esse livro pode ser interpretado, mas não é algo totalmente inovador – é a mesma premissa básica, por exemplo, de Harry Potter. É arroz com feijão para adolescentes. Mas tudo bem, arroz com feijão pode ser realmente bom.

Tenho boas referências dessa série e acho que o primeiro volume, apesar de morno em alguns momentos, termina no perfeito cliffhanger, ou aquela cena que muda totalmente as expectativas prévias do leitor. Uma boa base para o 2o volume – “A missão” (com uma capa tão horrorosa quanto a do primeiro volume).

O livro ganhou o Prêmio de Literatura infantil do jornal The Guardian na Inglaterra em 2008 e quando questionado sobre sua escrita peculiar, o autor respondeu:

“Se você está escrevendo um livro que não reflete o que os adolescentes vêem todos os dias, por que eles o leriam? Se você está dizendo para eles como algo deve ser em vez de como realmente é, por que eles iriam confiar em você para contar uma história realista? A resposta é que eles não confiariam.”

Nota-se no livro que Ness levou isso ao pé da letra. Algumas cenas em outras livros jovens seriam mais leves, mas ele não amacia nada. Todd escapa de um ritual da cidade apenas para cair no ritual padrão da vida: aquele momento em que você precisa reconhecer quem é sua família de verdade, como você deve assumir o que faz de certo e errado e, principalmente, como lidar com um mundo que não vai te dar nada de graça e que é permeado de mentiras. A vida pode ser muito desagradável para um menino que carrega um segredo enorme nas costas e não sabe bem como desvendá-lo. Há até mesmo uma cena interessante que envolve Todd escolhendo entre matar ou fugir. Não é uma escolha fácil e não é algo que ele precisa decidir apenas uma vez. No mundo de Ness, é uma escolha que reaparece várias vezes e carrega todas as suas devidas consequências.

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