Resenha – O mundo é bárbaro – e o que nós temos a ver com isso
por Patricia
em 26/11/12

Nota:

Veríssimo é um gênio. Sempre achei seu cérebro uma coisa sensacional. Acho muito mais difícil escrever comédia do que drama. Drama tem aspectos básicos e genéricos – todo mundo concorda que um cachorrinho morto é triste (claro que em diferentes graus) mas nem todo mundo ri das mesmas piadas – ou mesmo entende as piadas da mesma maneira.

Veríssimo tem um senso de humor ácido e no ponto. “O mundo é bárbaro e o que nós temos a ver com isso” – não é um livro que vai lhe render altas risadas o tempo todo, como a biografia do Ozzy, por exemplo, mas é um livro que vai fazer você dar aquele sorriso sarcástico por ter encontrado alguém que pensa coisas como (amostra grátis):

“Somos pós-hegelianos, pós-marxistas, pós-keynesianos, pós-freudianos, pós-modernos e pré-falimentares. Passamos do pastoral à sucata sem o estágio intermediário de um indústria própria, mas somos pentacampeões e os nossos celulares ficam cada vez menores, o que é mais do que se pode dizer da Argentina.”

Entenderam o que eu quis dizer? Eu entendi todas as palavras difíceis dessa frase? Não! Mas é engraçado? Claro. A Argentina é horrível e todo mundo sabe! 😉

O livro fala muito sobre o complexo de inferioridade brasileiro. Aquela coisa de brasileiro achar que tudo na França é lindo e aqui é tudo péssimo em comparação; isso de brasileiro falar mal do próprio país o tempo todo menos em época de Copa do Mundo. Ele trata também das nossas influência ibéricas, a ética da elite (o que ainda acho que é uma expressão contraditória) e etc, tudo com um tom de sarcasmo que respinga das páginas.

Os capítulos são curtos – a maioria tem duas páginas – então quando você menos espera já leu 100 páginas e riu quase sem querer.

O livro é dividido em três partes abordando assuntos diferentes – Nós no mundo (Brasil X o resto que é muito melhor que a gente); As condições do Tigre (China, China e China. E um pouco de guerra também…) e Velhos e Novos Bárbaros (Grécia, Rússia, presidencialismo, 11 de Setembro e por aí vai).

Não vale a pena, no entanto, intelectualizar demais os livros do Veríssimo. Ele exige sim uma interpretação sarcástica e quem não conseguir isso pode entender todos os textos como anti isso, anti aquilo. Mas, na verdade, o autor me parece apenas anti passividade. Ele quer nos mostrar que você não precisa odiar seu país comparando-o o tempo todo com o chamado “primeiro mundo”. Mas você também não precisar amar tudo e nunca criticar. Tem que haver um equilíbrio.

Essa é uma discussão válida quer seja feita com humor, quer seja mais xiita e/ou objetiva. Algumas crônicas do livro têm um tom mais sério e político do que outras. Algumas parecem até mesmo colunas de jornal com opiniões muito pessoais. Essas não são as melhores. O melhor ponto de Veríssimo é quando ele nos faz rir e pensar ao mesmo tempo. Amostra grátis:

“Está certo, a reincidência do Maluf é um atestado da inconsequência reinante no Brasil, onde nada tem história e ninguém tem biografia, ou pelo menos biografia relevante. Maluf é o símbolo dessa constante reabsolvição, dessa licença sempre renovada para a regeneração que salva nossa elite política do seu passado e dos seus prontuários e nossos contestadores das suas incoerências.”

Veja, o que ele diz é verdade e belamente escrito mas não é engraçado e pode soar pedante. Já li alguns outros livros de Veríssimo e é por isso que senti este um pouco diferente dos anteriores. Talvez ele acredite que as pessoas não tenham mais noção de sarcasmo e tenha decidido misturar crônicas leves com mais pesadas.

De qualquer forma, sempre recomendo um livro dele porque são livros bons, simplesmente. Infelizmente, esse livro não nos apresenta com tantas risadas. Para quem é fã do autor, vale a pena a leitura mas quem está procurando um livro leve para rir, talvez seja melhor ler as outras opções no catálogo de Veríssimo.

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