Resenha – O orangotango marxista
por Bruno Lisboa
em 23/07/18

Nota:

 

Marcelo Rubens Paiva é sócio do Poderoso. Das 15 obras que ele escreveu três delas já passaram por aqui (Feliz ano velho (resenhado por Patrícia, Ragner e Thiago), Ainda estou aqui e a biografia Meninos em fúria, escrita em parceria com Clemente Nascimento). Seja de forma biográfica ou no universo da ficção Marcelo é referência quando o assunto é a literatura brasileira. Suas obras, de modo geral, primam pelo caráter emocional, reflexivo e histórico. E O orangotango marxista não é diferente. Nesta nova obra, lançado este ano pela Alfaguara, Paiva cria um história ficcional, mas que muito diz respeito aos nossos tempos.

No enrendo temos um Orangotango capturado na ilha de Bornéu, separado de seus pais, e enviado a um laboratório no interior de São Paulo. Em paralelo aos estudos da bióloga local, o símio aproveitava de suas noites solitárias para ler (secretamente) na biblioteca livros de ciências, filosofia, sociologia, histórias em quadrinhos (Batman essencialmente) e a partir do conhecimento adquirido inicia a reflexão profunda sobre a humanidade. E tal como César, do filme Planeta dos macacos, à medida em que ele conhece mais sobre os humanos, mais os repugna.

Na sequência, o orangotango é transferido para o zoológico de uma cidade interiorana paulista. Estando lá suas observações sobre a sociedade, antes calcadas por leituras, agora ganham contornos ainda mais claros, in loco, pois diariamente ele vê as pessoas circularem pelo zoo, observando como elas se comportam.

Como marxista que é, ele vê os seres humanos de forma decadente e os critica de forma pungente. Religião, ciência, política, economia, tecnologia, vegetarianismo são algumas das frentes que macaco analisa, critica, racionaliza e, a partir daí, projeta sua revolução a la Revolução dos Bichos, clássico de George Orwell.

Curto. Grosso. Irônico. O orangotango marxista é um retrato fidedigno dos nossos tempos, numa sociedade que se vê presa a vício tecnológico, ao consumismo, a certos dogmas que impedem nosso avanço enquanto seres humanos e nossas relações.

O orangotango é o próprio Paiva (quem o acompanha sabe). E sua voz revoltosa pode ser também a sua (ou a minha), em consonância a estes tempos onde a humanidade segue descendo ladeira a baixo, rumo a um grande abismo. Mas a pergunta que fica no ar não é que a revolução é necessária, mas se ainda há tempo.

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O livro foi enviado pela editora.

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