Resenha – O parque das irmãs magníficas
por Juliana Costa Cunha
em 11/11/21

Nota:

Romance autobiográfico escrito por Camila Sosa Villada, O parque das irmãs magníficas nos conta, de forma realista e mágica, a trajetória da autora. Misturando passado e presente, acompanhamos o processo de reconhecimento de Camila como travesti. Desde a infância, quando começa a se perceber, até o momento em que está na faculdade e encontra no Parque Sarmiento lugar de encontro, acolhimento, pertencimento e fonte de renda junto a outras travestis que também faziam programa no local.

O Parque fica na cidade de Córdoba, na Argentina, e era conhecido como lugar de encontros de diversas tribos noturnas que, à luz do dia, não podiam viver livremente. A autora também aproveita seu livro para contar um pouco da história desse lugar que, com a onda de higienização da cidade, passou por revitalizações e iluminação, expulsando essas tribos dele e forçando, cada vez mais, a ida dessas pessoas para as periferias.   

O tempo em que Camila frequenta o parque junto com suas amigas travestis é o período em que ela afirma que teve “que vender meu corpo para continuar vivendo como mulher”. Ela não consegue trabalho que a sustente. Já está morando fora da casa de seus pais e da sua pequena cidade natal no interior e, em dado momento, andando na rua, um homem lhe pergunta o valor do programa e ela aceita. Ela que já estava na universidade, alugava um quarto pequeno numa pensão precária e passava por necessidades.

No parque, encontra-se com outro grupo de travestis que já o têm como local de trabalho e de convivência entre si. Entre esse grupo, que acaba sendo uma grande família, há a figura de Tia Encarna, a mais velha do grupo. Ela exerce a função de conselheira e protetora dele. É na casa de Tia Encarna que muitas delas moram, como se fosse uma grande pensão. Uma casa que tem espaço e quintal grande, como muitas plantas e cores vivas. Uma casa cheia de vida e alegre, apesar de todas as adversidades pelas quais todas elas passam no seu cotidiano desde a mais tenra idade.

Em dado momento, uma noite no parque, Tia Encarna descobre um bebê embrulhado em pano numa vala do Parque Sarmiento. Imediatamente ela recolhe a criança e a acolhe em seu lar, dando a ela o nome de Brilho dos Olhos, pois era isso que ela representava para todas. O Brilho, como carinhosamente passou a ser chamado, era cuidado por todas.

Camila vai fazer uso do realismo mágico para narrar essa história. Considero esta uma escolha mais do que acertada, porque parece ser um tanto quanto mágico a vida dessas mulheres com tantos sofrimentos, tantas formas mirabolantes de lidar com eles e seguir vivendo. A casa era o espaço das vivências delas, dos afetos e da proteção. Do portão pra dentro, o grupo de travesti vivia a mágica de serem exatamente aquilo que eram. Para fora do portão a vida se apresentava real.

Com os vínculos entre elas se enfraquecendo, a casa vai deixando de ter essa característica mágica da proteção. E passa a se deteriorar junto com as vidas das personagens. Como se quisessem nos dizer que a vida real acaba com a magia. A casa passa a ser atacada e elas, por medo, passam a deixar de frequentá-la. Embora, sempre que necessário, todas estão lá. O momento final do livro, que é de uma beleza sem igual, deixa isso muito explícito. É uma dura caminhada. E elas estão juntas.

Tem uma coisa muito bonita que Camila faz nesse livro, que é contar um pouco a história de todas estas mulheres que faziam parte do grupo. É como se na narrativa, ela fosse puxando um contexto específico para que cada uma fosse protagonista em dado momento.

O livro é de uma beleza sem igual, para narrar vidas que passam por diversas agressões ao longo de sua existência. Vale dizer que nenhuma das personagens tem uma história redonda e com final feliz. As metáforas utilizadas pela autora são muito bonitas e tornam a narrativa poética. Porém, não se iluda. Não há final redondo e feliz para a maioria delas. Lembre-se sempre que, infelizmente, uma travesti tem um ciclo de vida muito menor que outras mulheres cis e, mesmo com toda magia, Camila nos narra histórias de vida reais.

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