Resenha – O professor e o louco
por Patricia
em 14/10/14

Nota:

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Como uma nerd confessa de livros, há algo que de vez em quando penso e me fascina: como autores como Shakespeare e Jonathan Swift escreviam livros e mais livros sem nenhum dicionário ou nenhuma fonte de referência para as palavras que utilizavam? Literalmente, eles não sabiam se tal palavra existia de verdade!! Shakespeare, por exemplo, foi considerado um grande mestre da língua justamente porque precisava inventar palavras para expressar o que queria.E, com isso, acabou criando diversos verbetes usados, de uma forma ou de outra, até hoje.

Sempre achei historias como essa muito interessantes. Mais por uma curiosidade de minha parte sobre palavras e sua formação, bem como sua História. Um dicionário pode ser, dependendo como você olha, uma boa aula de História – dizia minha professora de redação.

Esse foi o motivo do meu interesse em ler “O professor e o louco” – livro que fala da criação do maior dicionário da língua inglesa, o Oxford English Dictionary  que até hoje é a maior referência da língua. Foi um trabalho de 70 anos e exigiu enorme dedicação de um grupo de especialistas para definir cada verbete, como deveria ser usado, a grafia correta, as citações que o explicavam e etc. Imagine como seria definir o que tal palavra significava e a primeira vez que foi usada na escrita quando havia mais de trezentos anos de literatura produzida para estudar? Não é a toa que a primeira edição tinha 124 fascículos. A segunda edição, tinha 20 volumes. E ainda devemos levar em conta que a língua está em constante mudança, ou seja, a pesquisa para um dicionário é um trabalho que nunca termina.

Editores do Oxford English Dictionary

Editores do Oxford English Dictionary

Mas o mais interessante foi que o trabalho também contou com um grande numero de voluntários (não poderia ser de outra maneira numa época sem as facilidades da internet). Entre eles, um militar reformado dos Estados Unidos que havia sido preso na Inglaterra por assassinato. Pasmou? Explico: Dr. William Minor foi médico do exército norte americano durante a guerra civil. Enviado para o campo de batalha, foi obrigado a presenciar atos impensáveis e, chegou a marcar com fogo o rosto de um homem que havia deserdado. Acredita-se que foi a partir daqui que a mente do Dr. Minor começou a tomar um rumo inesperado.

Com o que hoje poderia ser diagnosticado como estresse pós-traumático e que se transformou em uma esquizofrenia, ele foi reformado e passou a viver da pensão que recebia do exército. Um belo dia, decidiu ir para a Inglaterra onde esperava despistar os homens que ele acreditava que o seguiam para machucá-lo durante a noite. Uma noite, certo de que um desses homens havia acabado de fugir, ele o persegue e quando o encontra na rua, atira quatro vezes ate matá-lo. Em pouco tempo o triste equívoco é descoberto: o Dr. havia atirado em um trabalhador do cais que estava indo rumo ao seu turno da madrugada. A vitima deixou sete filhos e uma viúva em estado de miséria.

Preso e julgado, rapidamente ficou claro para as autoridades que o Dr. não tinha a mínima condição de ficar em uma cela normal. Ele era paranóico ao extremo e temiam que pudesse ser perigoso para os outros e para si mesmo. Foi, assim, mandado a um manicômio. Lá, graças a sua pensão teve uma vida confortável por trinta anos. Um de seus muitos privilégios constituía em poder ter estantes e estantes de livros à sua disposição.

Foi assim que seu envolvimento com o dicionário de Oxford começou, mas não vou entrar muito nos detalhes porque uma das diversões que esse livro proporciona é justamente permitir ao leitor entender como tudo se juntou para resultar em uma parceria, no mínimo, inesperada.

O livro não é exatamente sucinto, não trás grandes historias de ação, não tem um grande apelo emocional. O que prende o leitor nesse livro é gostar de livros. É ter essa curiosidade que citei no começo de saber como grandes obras são feitas, como tudo acontecia antes, qual o processo, o trabalho, a dor de cabeça e tudo o mais que acaba envolvido em algo dessa magnitude. É um livro sobre um outro livro com uma boa historia por trás. Não vou fingir que é nada mais do que isso.

E justamente por esse motivo que esse é um livro indicado para um público específico ou pode ser tachado de enfadonho – o que seria uma injustiça. Quem espera grandes cenas, motivações, temas importantes e tudo o mais, pode ficar desapontado. Quem gosta de uma boa história, bem escrita, sobre duas mentes brilhantes, mas não emocionantes, pode encontrar um livro divertido e cheio de informações das mais nerds.

Decida e divirta-se.

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2 Comentários em “Resenha – O professor e o louco”


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Amanara em 28.08.2019 às 17:14 Responder

Nossa, quero muito ler esse livro. Estou lendo uma biografia de um dos linguístas que trabalhou na construção do dicionário

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Patricia em 28.08.2019 às 21:50 Responder

É muito interessante! Eu acho fascinante a história de quem trabalha com palavras, principalmente em projetos pioneiros como esse. =)
Saiu um filme esse ano com Mel Gibson e Sean Penn que é baseado nesse livro. =D


 

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