Resenha – O que é ciência da religião?
por Thiago
em 06/08/14

Nota:

 

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Sempre que digo a alguém que fiz mestrado em ciências da religião vejo aquela interrogação na cara da pessoa. Sim, eu sei que é uma área pouco conhecida, por isso este texto aqui, para clarear um pouco e trazer ao conhecimento de vocês esta área do conhecimento que acho tão bacana.

Segue assim uma análise do livro “O que é Ciência da Religião?” de HansJürgen Greschat,  professor emérito de História da Religião na Universidade de Marburgo, na Alemanha.

Ao falarmos de ciência da religião, ciências da religião, ciência das religiões, ou ainda, ciências das religiões, parece que a princípio estamos fazendo algo contraditório. Como fazer ciência com religião? De uma forma geral, mas não como regra, as ciências têm como objeto algo preciso, entretanto “o que é fácil para cientistas exatos é problemático para cientistas da religião”(GRESCHAT,2005). Afinal, o objeto de pesquisa desta área não é algo palpável e nem exato, como podemos encontrar na biologia e na matemática. O objeto religião é um termo de difícil definição, podemos aceitar a hipótese de não termos um conceito fechado para essa palavra, entretanto não podemos negar sua existência. Greschat nos diria que “a palavra religião serve para especialistas de diversas disciplinas, embora nem sempre – e nem em todos os lugares – denomine a mesma coisa.” (GRESCHAT,2005). Assim como a psicologia, que trabalha com a definição, ou com a difícil definição de idéia de alma, temos a Ciências da religião com um objeto também impreciso, o que torna a investigação algo que necessita se apoiar na ciência e no método para que a imprecisão de seu objeto não se torne algo problemático.

Bertrand Russel nos mostra que a relação entre ciência e religião sempre foi marcada pelo conflito. Uma crença religiosa difere de uma teoria científica, ao alegar a incorporação plena de uma verdade eterna, ao passo que a ciência é sempre experimental, esperando que as modificações em suas teorias atuais, mais cedo ou mais tarde, sejam necessárias e ciente de que seu método é um daqueles logicamente incapaz de chegar a uma demonstração final e completa. (RUSSELL, 2009b, p.6)

Como Russel nos mostra, a proposta das duas difere na questão de uma verdade eterna na religião, ao passo que a ciência, mesmo que também busque respostas, trabalha com respostas provisórias. A ciências da religião, por se tratar de ciência busca um método para lidar de forma imparcial e distanciada de uma vivencia transcedental. Afinal o que torna científico um conhecimento não é sua veracidade ou a crença que temos nele, mas sua metodologia, uma forma de conhecimento controlado por regras lógicas, estabelecidas e verificadas pela comunidade científica que o obrigam a uma fundamentação empírica. Só pode ser qualificado como científico o conhecimento logicamente ordenado e obediente às prescrições metodológicas da disciplina que contemplam aquele objeto. Assim, a verdade ou qualidade de uma religião não é questionada nesta área de conhecimento.

A perspectiva dos cientistas da religião quanto a seu objeto difere tanto  de observadores casuais quanto do olhar profissional de outros cientistas. È semelhante a uma paisagem vista pelos olhos de um camponês – olhos que são diferentes de o de um caçador, ambientalista ou andarilho. (GRESCHAT,2005,P.23,24)

A metodologia, dita acima, busca garantir esse olhar “diferente”, deve-se ter atenção a essa idéia, pois, ao tratar de religião não estamos lidando com algo que é plausível de análises em laboratório, ou animais com padrões de comportamento e sim com o ser humano e suas crenças, sua noção de sagrado, sua busca por sentido. Assim: Ela nos obriga a levar a sério também os fiéis de outras religiões e não somente usá-los como instrumentos ou estudá-los de um ponto de vista distante, como o de biólogos que observam um grupo de chimpanzés. Nossas conclusões sobre determinada religiosidade alheia estão corretas? (GRESCHAT, 2005, p. 160).

A análise proposta não impede que o cientista da religião tenha suas crenças, mas metodologicamente busca impedi-lo de contaminar seus estudos acerca da religião com o olhar de sua opção religiosa, seja ela de matriz judaico-cristã ou não.

Usarski (2006) utiliza a expressão de Udo Tworuschka onde a ciência da religião é vista como “filha emancipada da teologia”. Porém o autor continua nos mostrando que o discurso teológico difere dos estudos da ciências da religião.

Além da independência institucional da sua disciplina-mãe nas universidades, o caráter “emancipado” da Ciência da Religião mostra-se, entre outros aspectos, na vasta extensão da sua área de pesquisa e no seu ideal de neutralidade diante dos seus objetos. Diferentemente da Teologia, cujos representantes são geralmente comprometidos com o cristianismo tanto como referencia religiosa particular quanto como privilegiada matéria de analise, a Ciência da Religião é virtualmente irrestrita quanto aos fenômenos considerados por ela dignos de investigação. Aproxima-se de seus objetos por um interesse primário isento de motivos apologéticos ou missionários. A consciência da “relatividade” e a postura de um “não-etnocentrismo” diante das expressões múltiplas no mundo religioso, “a capacidade potencial de abstração religiosa de si mesmo” e “indiferença” a respeito das contraditórias pretensões da verdade com as quais o pesquisador é confrontado na realização de seus projetos, são competências-chave que caracterizam a Ciência da Religião. (USARSKI,2006, P.17)

Assim podemos perceber o campo da ciências da religião e o delinear de seu objeto.  Para prosseguirmos com essa análise se faz necessário explicitar o que se entende aqui como religião e conseqüentemente como sagrado. Partimos de uma análise clássica da sociologia. Durkheim nos mostra que a religião pode ser vista como um fato sociail; e em As regras do método sociológico, o autor é categórico: “toda explicação psicológica para um fato social é necessariamente falsa”. Assim para Durkheim a religião, como um fato social, deve ser analisada através do seu método sociológico, considerando como seu objeto de estudo apenas fatos sociais que ultrapassam as individualidades dos membros do grupo onde o fato social se encontra.

Segundo Ribeiro (2011) podemos compreender a religião pelo método de Durkheim da seguinte forma:

Durkheim, cujo grande tema de estudo era a solidariedade social, vai procurar a resposta na separação entre o sagrado e o profano. Quando um grupo humano define algo como sagrado, retira-o do uso profano e o cerca de respeito. Aí aparece a religião como um conjunto de ritos e crenças compartilhados por um grupo (sociedade). Cumprem-se assim os requisitos: exterioridade (ritos e doutrinas, e não a fé), generalidade (todos se referem a ela como real, inclusive quem a combate) e obrigatoriedade (profanação é crime). Por isso, não é ilusão, mas é “a vida levada a sério”. Pode então ser sociologicamente explicada: (1) romper com o senso-comum (tendência inata, reverência ao mistério…) (2) observar como “coisa” (as práticas, sem formular juízos de valor ou ter que acreditar no que dizem), (3) classificar (religiões simples e complexas, nacionais e mundiais), (4) comparar a partir de um caso bem estudado, e (5) encontrar sua função. Fique claro que a função social não é o mesmo que propósito, finalidade ou intenção. O conceito vem da biologia, quando estuda a função de um órgão dentro do aparelho e vê as consequência objetivamente observáveis de seu funcionamento. R. Merton trabalha muito bem esse conceito, que é chave para a sociologia (embora a teoria funcionalista de Parsons – que reduz todos os fatos sociais à sua função para a manutenção do sistema – tenha caído em desuso). (RIBEIRO, 2011).

Assim, através do método proposto, o olhar do cientista da religião para seu objeto garante a emancipação da teologia como nos diz Tworuschka. Amauri Carlos Ferreira nos traz uma interessante análise sobre a relação da ciência e a religião no seu artigo sobre o filósofo Bertrand Russel. Já conseguimos perceber no título do artigo o teor da provocação, Viver sem Deus e sem religião: a vida possível no ateísmo. O pensamento filosófico científico, diferentemente do pensamento religioso busca a indagação, a investigação, enfim a arte de fazer perguntas, de tal forma Ferreira pode propor, através da ótica de Russel, perguntas como É possível viver sem Deus? É possível viver sem religião? Para tais temos os que optam por uma resposta afirmativa e outros que optam pela crença na necessidade de um deus e de uma religião. A ciência da religião, não trabalha com esses tipos de perguntas, ou seja, não entra no campo da fé, e sim da análise das religiões, sem entrar no mérito de certo ou errado. Entretanto, uma área que podemos considerar recente como esta acaba sofrendo preconceitos de alguns lados. A teologia e a ciência se encontram como fortes criticas da área aqui explicitada. As criticas cientificas são as mesmas que outras áreas como a ciências sociais, ciências políticas, antropologia e psicologia sofrem, por não se encontrarem com um trabalho de experiências laboratoriais e por terem um estilo impreciso de objeto. Já o preconceito teológico parte da natureza diferente das duas áreas, mesmo tratando de tema similar. Russel, em seu livro Religião e Ciência, ilustra alguns preconceitos teológicos sofridos pela ciência de um modo geral como o caso da vacina contra a varíola e seu processo de imunização (Ferreira 2009)

Um eclesiástico anglicano publicou um sermão no qual dizia que as pústulas sem dúvida eram decorrentes da inoculação pelo Diabo, e muitos ministros escoceses se uniram em um manifesto que afirmava que isso era uma tentativa de confundir um julgamento divino. Entretanto, o efeito na diminuição na taxa de mortalidade infantil ocasionada pela varíola foi tão notável que os terrores teológicos não conseguiram ultrapassar o medo da doença. No ano de 1885, diante do surto de varíola em Montreal, a parte católica da população resistiu à vacinação como apoio ao clero. Um dos padres afirmou ‘Se somos afligidos pela varíola, é porque tivemos um carnaval no inverno passado e banqueteamos a carne, o que ofendeu ao senhor. Os padres Oblatos, cujas Igrejas estão situadas no centro do distrito infestado, continuaram a condenar a vacinação; os fiéis foram encorajados a confiar em exercícios de devoção de vários tipos; sob a sanção da hierarquia, uma grande procissão foi ordenada com um apelo solene à Virgem, e o uso do rosário foi definitivamente obrigatório. (RUSSELL, 2009, p.75-76)

O preconceito em relação a ciências da religião caminha de forma similar, pelo caráter investigativo em relação a um objeto que a teologia, não importando aqui sua raiz, seja ela católica, protestante, judaica ou de outras matrizes, trata com fé, de forma que não cabe o caráter investigativo, mesmo que, ressaltando, a ciências da religião não trabalham com juízos de valor sobre a veracidade ou não de uma crença.

Podemos assim chegar ao raciocínio que o preconceito sofridos pela ciências da religião são fruto da falta de conhecimento a respeito da área. Da falta de compreensão de sua proposta e recorte. Para tal esclarecimento existe uma boa bibliografia da área, como o livro de Hans- Jurgen Greschat, denominado O que é ciência da religião?

Frank Usarski traz no prefácio da edição brasileira deste livro, que o mesmo traduziu, quatro razões para recomendar e ressaltar a importância dessa obra. Em primeiro, Usarski levanta a linguagem fácil e didática usada por Greschat ao tentar explicar e responder o que seria a ciência da religião. A segunda razão está no simples e importante fato de o autor ser um cientista da religião, uma área que mesmo abordando questões de caráter filosófico trabalha com um método ligado as investigações sociais. O terceiro ponto esta na ênfase que a obra faz a “personalização da ciência da religião” como uma área necessariamente multidisciplinar.

Usarski diria que Hans-Jurgen Greschat distancia-se das gerações anteriores de cientistas da religião e da tendência destes últimos a privilegiar os textos religiosos como principais referencias de pesquisa. O autor não nega a importância de tais fontes, mas salienta que, além do problema de uma hieraquirzação de objetos de estudo em desfavor de povos sem escrita, a vida religiosa – especificamente com relação a suas formas populares – manifesta-se de maneira multifacetada e constitui uma totalidade cuja investigação adequada requer abordagem multiangular. (USARSKI 2005,P.10).

Assim Usarski deixa clara a proposta de Greschat em ressaltar a importância de expandirmos o material empírico, enfim, do cientista da religião não se restringir apenas a materiais e questões teóricas, o cientista da religião deve ir a campo, deve conhecer empiricamente seu objeto, deve analisá-lo com a prática de um investigador social, como mostramos anteriormente com Durkheim, podemos também olhar através de Weber, que por sua vez não se indaga sobre as origens (ou causas) da religião, e sim sobre as condições nas quais as idéias religiosas são produzidas e difundidas, e que efeitos elas têm na vida prática das pessoas.

O quarto motivo levantado por Usarski é enfatizar a autonomia da ciências da religião, ou como o autor prefere, ciência da religião. Uma independência em relação a teologia e em um sentido filosófico, se demarcando com uma área distinta do conhecimento e tomando assim seu espaço no meio acadêmico.

Dessa forma Greschat nos mostra a importância e o terreno da ciência da religião, onde como no termo utilizado por Udo Tworuschka para se referir a tal área como “filha emancipada da teologia”, Greschat em seu livro, ressalta essa emancipação dita por Tworuschka, como sendo uma ciência independente e imparcial. A imparcialidade é algo muito importante para o cientista da religião, Greschat nos diz que: Depois de ler, observar e ouvir, chega o momento de vivenciar a religião alheia pesquisada. Vivenciar significa ao mesmo tempo ver, ouvir, cheirar, tocar e saborear. Em vez de olhar com espanto de dentro de seu ambiente doméstico para algumas exóticas trazidas de países distantes, o pesquisador deixa-se cercar pela totalidade viva de uma religião alheia. (GRESCHAT, 2005, p. 160).

Vale ressaltar aqui o termo utilizado pelo autor sobre a “religião alheia pesquisada”, onde se mostra interessante um distanciamento do pesquisador para com seu objeto de pesquisa para tentar garantir uma certa imparcialidade a pesquisa, entretanto não quer dizer que um religioso não posso estudar características de sua crença, ou que um ateu não possa pesquisar sobre ateísmo, desde que consigam manter um distanciamento necessário para o sucesso de seus estudos. Por vezes tal distanciamento se torna complicado e a ciência da religião em seu caráter imparcial acaba não se realizando, por vezes alguns pesquisadores se perdem no que diz respeito ao agir do cientista da religião.

Podemos concluir que, através dos motivos apresentados por Usarski, a importância de Greschat e de seu livro O que é religião? temos em mãos um livro introdutório sobre a área que pode servir como um guia para os pesquisadores da área.

Entretanto, como começou a ciência da religião? Algo de comum acordo é o fato de Friedrich Max Muller (1823-1900), inicialmente um estudante de línguas, como grego e latim aos 18 anos na universidade de Leipzing, aos 22 anos resolveu estudar sânscrito e Muller se mudou para Paris com o intuito de estudar com um grande sanscritologista da época, Eugene Burnouf, o qual o incentivou ao estudo do Veda. Assim transcreveu o Rig Veda, um compendio de 10 livros e 1.028 hinos. Pra tal feito, o mesmo dedicou 25 anos de sua vida e foi patrocinado pela Companhia das Índias Orientais.

Através das memórias de Max Muller, podemos chegar ao que seria o início da ciências da religião. O mesmo chegou a ser reconhecido e respeitado entre os indianos como se fosse um brahmane, pois sabia tanto ou mais dos Vedas que os próprios brahmanes locais.

O cientista da religião deve conhecer e estar próximo de seu objeto, assim como fez Max Muller. Há diversas formas de realizar essa aproximação, Greschat mostra em seu livro algumas delas como a arte sacra, em suas diversas formas como a escultura, pinturas, tapeçarias, poemas; há também os utensílios religiosos utilizados em ritos ou que trazem em si parte da história da religião, juntamente com documentos religiosos e o contato com os diversos agentes como fiéis, sacerdotes, profetas, místicos e demais personagens que possam ser encontrados no universo de seu objeto.

Podemos, através dessa breve análise, perceber que o profissional desta área lida com um terreno árido e trabalha através de um olhar não corriqueiro em relação a religião,que através do senso comum ou de outras áreas do  conhecimento, em geral não é vista de forma analítica, através de um método que busca conhecer e compreender seu objeto, entretanto não de forma transcedental numa busca de sentido como fazem os fiéis de uma religião ou os teólogos da mesma.

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1 Comentário em “Resenha – O que é ciência da religião?”


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Ezequias Brito de Souza em 26.07.2019 às 11:18 Responder

EXELENTE TRABALHO ME AJUDOU MUITO NA POS QUE ESTOU FAZENDO.
VC É EXELENTE NO SEU TRABALHO E ESTA RESENHA VEIO NA HORA CERTA MEU AMIGO.
CONTINUE SEU TRABALHO VAI PERCORRE O MUNDO PODE CRE.


 

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