Resenha – O que o dinheiro não compra
por Patricia
em 04/05/15

Nota:

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Tenho acompanhado de longe o debate pró e contra a propaganda infantil. Não tenho filhos e nem sobrinhos diretos e, portanto, acompanho apenas como uma pessoa interessada no assunto. No centro desse debate está minha adorável Turma da Mônica que, na minha época, tinha uma extensa linha de produtos disponíveis. O assunto estava tão em voga no ano passado, que foi o tema da redação do ENEM.

Muitos argumentam que não é correto desenvolver ações de marketing específicas para crianças; outros dizem que a publicidade é apenas uma maneira de mostrar o que está disponível. Recentemente, ainda outro debate envolvendo crianças em ambientes adultos, digamos, surgiu: o caso da MC Melody. A menina, de 8 anos já trabalha como gente grande fazendo shows de funk agenciada pelo pai – que também é MC.

Justamente por isso, o livro de Michael J. Sandel “O que o dinheiro não compra – Os limites morais do mercado” me chamou a atenção. Já conhecia Sandel de algumas palestras incríveis que vi no canal da Universidade de Harvard onde ele é professor. Em um de seus vídeos, ele fala sobre moralismo em diversas situações extremas gerando um debate incrível sobre o que é certo e o que parece certo. (Se é que o certo existe de verdade). As aulas resultaram no livro Justiça: O que é fazer a coisa certa.

Em “O que o dinheiro não compra”, Sandel aborda não questões de justiça, mas de economia. Principalmente, a maneira como o processo de “tudo está à venda” tem transformado situações que deveriam ser, essencialmente, não econômicas.

É errado testar remédios em pessoas pobres? É errado alugar parte do corpo para publicidade? É errado contratar uma mulher no 3o mundo para ter o filho de um casal do mundo desenvolvido? O debate parte da questão vontade X necessidade. Se a moça quer ser barriga da aluguel, ela deveria ter esse direito. Mas e suas condições são tais que a escolha não é mais tão livre assim? O debate sobre a luta de classes, claro, entra no jogo também de maneira bem óbvia, ainda que não seja o centro de toda a conversa.

Mais do que analisar esses exemplos detalhadamente, o autor nos propõe uma reflexão sobre o valor real do dinheiro e o valor que nós damos a ele. E mais, a persona consumidora de cada um, mostra Sandel, tem assumido cada vez mais a dianteira nos relacionamentos interpessoais. Pensamos cada vez mais como consumidores do que como seres humanos, pura e simplesmente porque o sistema econômico está tão arraigado em nossas vidas que tem guiado tudo, até mesmo relações que antes eram baseadas em outras questões: como parceria, amizade e etc. Hoje, o que vemos é uma mercantilização de quase todos os aspectos da vida comum.

Sandel articula bem suas idéias e deixa sim claro de que lado está em cada questão, mas ele é o primeiro a dizer que não existem verdade absolutas.

A escrita de Sandel é muito objetiva e os exemplos servem para ajudar o leitor a pensar em diversas possibilidades do mesmo caso genérico e, com isso, facilita a compreensão do que o autor quer nos passar. Uma leitura que, apesar do peso em certos momentos, flui muito bem. Para quem quer ter um gostinho das opiniões de Sandel, recomendo ler essa entrevista que o autor concedeu a’O Globo em 2012.

O debate segue, mas a contribuição de Sandel, definitivamente, amplia o escopo dessa conversa e serve para ajudar o leitor a afiar seus próprios pontos de vista.

“Quando a guerra fria acabou, os mercados e o pensamento pautado pelo mercado passaram a desfrutar de um prestígio sem igual, e muito compreensivelmente. Nenhum outro mecanismo de organização da produção e distribuição de bens tinha se revelado tão bem-sucedido na geração de afluência e prosperidade. Mas, enquanto um número cada vez maior de países em todo o mundo adotava mecanismos de mercado na gestão da economia, algo mais também acontecia. Os valores de mercado passavam a desempenhar um papel cada vez maior na vida social. A economia tornava-se um domínio imperial. Hoje, a lógica da compra e venda não se aplica mais apenas a bens materiais: governa crescentemente a vida como um todo. Está na hora de perguntarmos se queremos viver assim.”

Além dos livros citados previamente, a autor tem ainda mais um livro traduzidos para o português: Contra a perfeição: Ética na era da engenharia genética. Todas as obras foram lançadas no Brasil pelo selo Civilização Brasileira do Grupo Record.

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