Resenha – O Segundo Sexo
por Gabriel
em 11/04/15

Nota:

O Segundo Sexo

Mais um livro pra conta do meu ano de leitura de mulheres. Dessa vez o escolhido foi um clássico da teoria feminista, O Segundo Sexo de Simone de Beauvoir.

Já falei da Simone aqui antes, quando assisti ao documentário que mostrava sua vida. E é com o mesmo fascínio que passei pelas páginas desta obra. Trata-se de uma contundente defesa de um ponto de vista que, se hoje ainda encontra não poucas dificuldades em se fazer ouvir, à época de sua publicação (1949) consistia em um ato de coragem extrema.

A premissa do livro é a de que a mulher não é o “segundo sexo” ou o “outro” por razões naturais e imutáveis, mas sim por uma série de processos sociais e históricos que criaram esta situação. Toda a sua argumentação gira em torno do questionamento da existência do chamado “eterno feminino”, visto pela sociedade como algo intrínseco a qualquer mulher e que as prenderia a uma gama restrita de características e, principalmente, limitações. Com isso em mente, a autora passeia pelas mais diversas áreas do conhecimento em busca de argumentos, com sucesso estrondoso e coerência inquestionável.

A primeira parte do livro leva o nome de Destino e traz três pontos de vista importantes: o ponto de vista biológico, o ponto de vista psicanalítico e o ponto de vista do materialismo histórico. Não sou um especialista em nenhuma das três áreas, mas Simone argumenta com extrema coerência e lucidez, ainda mais considerando-se os dados que tinha em mãos à época, para expor seu ponto: não há justificativas para que a mulher seja de fato uma “casta” inferior ao homem. Isto posto, ela passa a seu próximo assunto: o que teria causado essa situação.

“História” é o nome da segunda parte, e aqui vemos mais um trabalho de pesquisa extenso e de qualidade feito pela autora. Desde a Antiguidade, passando pela Idade Média e chegando aos tempos em que viveu, ela passa por todos os aspectos relevantes e necessários para entender como a mulher ocupou uma posição tão diferente da do homem na sociedade.

A terceira parte se dedica aos mitos. O primeiro capítulo disseca mitos mais comuns e é mais interessante e relevante do que os que se seguem, que examinam autores específicos e acabam por ser um pouco mais datados do que o restante do conteúdo do livro (no sentido de não serem mais tão relevantes). Simone examina com muita habilidade as obras, mas trata-se talvez de uma análise que precisa ser sempre recriada com os clássicos de cada época, tendo ficado já um tanto superada.

O Segundo Sexo é uma obra básica para o entendimento do feminismo. É considerada por alguns um marco teórico importante da chamada segunda onda do feminismo no Brasil, e traz diversos conceitos e argumentações irrefutáveis e importantes para a luta feminista. É um livro por vezes complexo, como não poderia deixar de ser, mas cujo conteúdo precisava ser mais e mais divulgado, ainda mais levando-se em conta que há pessoas que refutam o feminismo como se fosse algo desnecessário ou antigo. Definitivamente uma obra necessária e mais relevante do que nunca.

PS: a obra é de domínio público e está disponível aqui.

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5 Comentários em “Resenha – O Segundo Sexo”


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JUSTINA EFIGÊNIA QUEIROS SANTOS em 30.10.2015 às 22:28 Responder

O pano de fundo do feminismo. Mulher determinada. Deixou a sua contribuição teórica. Admirável.

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Ademar Amancio em 11.12.2016 às 14:58 Responder

A internet é uma glória,podemos ler a resenha e a obra de graça,e sem sair do quarto.

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Barbara P. em 16.04.2017 às 20:47 Responder

Essa crítica ao livro da queridíssima Beauvoir foi formidável. Obrigada por compartilhar seu conhecimento enriquecedor sobre o livro.

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Luciene Abdala em 22.08.2017 às 11:47 Responder

Fabulosa obra de arte de umas das mulheres mais admiráveis dessa existência. Síntese muito bem elaborada. Parabéns por sua excelente contribuição.

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Jorgeh Mendes em 04.12.2019 às 09:59 Responder

Estou escrevendo sobre a autora francesa espectacular pela lucidez e conhecimento. Sou graduando em filosofia na UFPel e foi paixão a primeira vista pelo rigor e determinação da escritora. Acrescento que A moral da Ambiguidade merece leitura, da mesma autora. O conhecimento é um afrodisíaco.


 

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