Resenha – O sol é para todos
por Bruno Lisboa
em 10/08/21

O que torna um livro um clássico? A resposta para essa pergunta pode ser algo de natureza subjetiva, já que a predileção por uma obra literária pode trazer à tona uma série de motivos pessoais, que fazem com que uma obra caia num imaginário popular de adoração. Mas um fator que pode ser considerado como universal para que a obra entre para o hall daquelas que serão admiradas por anos e anos é a sua atemporalidade. E nesse sentido o que faz com que “O sol é para todos” seja classificado como tal é, justamente, este último fato.

Lançado nos anos 60, a obra escrita por Harper Lee ganhou o Pulitzer em 1961. Porém, o fato de receber tal premiação não é o principal fator que faz com que o livro permaneça, geração após geração, vivo no imaginário de leitores de ontem e de hoje. Muito menos se deve em razão da belíssima adaptação para o cinema protagonizada por Gregory Peck e dirigida por Robert Mulligan, dois anos mais tarde, vencedora de três Oscars. O segredo está justamente centrado na narrativa.

O enredo em si gira em torno da família Finch, composta pelo advogado Atticus Finch e seus filhos (Scout e Jem), que residem em Maycomb, pequeno município de Alabama, no sul dos Estados Unidos, no início dos anos 1930. A vida segue o ritmo lento de uma cidade interiorana e suas idiossincrasias conservadoras, mas tudo começa a mudar de figura a partir do momento em que Atticus se dispõe a defender Tom Robinson, um homem negro, acusado, injustamente, de ter estuprado uma mulher branca.

Como se observa em “O sol é para todos”, Lee é uma escritora que prima pela descrição e a ambientação da leitura. E, para tanto, antes de tratar do tema central da obra a autora a divide em dois tomos. No primeiro ela constrói no imaginário do leitor, de forma detalhada, toda uma gama de personagens e os sentimentos de uma comunidade. E é a partir deste prospecto que ela trata, no segundo tomo, de maneira pontual do racismo estrutural, tomando como base o julgamento de Robinson e seus desdobramentos sociais.

Outro ponto interessante referente às personagens está relacionado ao tom de crítica social traçado por Lee. Mesmo que as mesmas estejam em segundo plano, é perceptível na sua escrita o seu incômodo em relação a escola tradicional, que inibe os alunos de terem um papel protagonista na sala de aula. Há também críticas aos valores de uma sociedade patriarcal, que não consegue aceitar o fato de Scout ser uma menina livre e valente, que ao não se comportar da maneira tradicional vigente, acaba por ser um contraponto ao papel doméstico imposto às mulheres da época.

Dolorosamente atual, “O sol é para todos” coloca o racismo em pauta e em xeque, conseguindo transmitir de forma agridoce algo desprezível como as práticas racistas que insistem em serem perpetuadas por uma parcela da sociedade, que segue presa a valores e costumes errôneos de outrora. A inquietante universalidade da obra é uma clara amostra de que muito temos a aprender (e a combater) quando o assunto é o preconceito racial.

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