Resenha – O sol é para todos
por Patricia
em 04/04/16

Nota:

Unknown

Li “O sol é para todos” com a expectativa de quem ouviu falar sobre o livro desde que pode se lembrar. Lançada em 1960, a obra foi quase que instantaneamente aclamada pela crítica e conquistou um lugar cativo em listas de melhores obras do mundo.

O burburinho em torno da obra se tornou ainda mais forte com o lançamento da sequência “Vá, coloque um vigia” em meados de 2015. Rodeado por polêmica, o livro alcançou a lista de mais vendidos no mundo todo já na pré-venda. Apesar de ter escrito apenas dois livros em toda sua vida, Harper Lee com certeza conseguiu deixar sua marca no mundo literário.

Normalmente, tenho certa resistência por livros com essa reputação tão constante, mas “O sol é para todos” não podia mais ser ignorado.

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O enredo gira em torno da família Finch que tem como base o patriarca – Atticus Finch. Viúvo, ele cuida das duas crianças Jem e Scout com a ajuda de uma empregada negra (e sim, a raça dela é importante pelo contexto que explicarei logo menos). Atticus é um advogado (um dos poucos da pequena cidade) e é chamado pelo Juiz para defender um caso que ninguém aceitava.

Tom, um homem negro, foi acusado de estuprar uma menina branca. O caso deixou a cidade em polvorosa e Tom, ainda que não tivesse nem sentado ao banco dos réus, já havia sido condenado na boca do povo.

Em uma linha narrativa paralela, Lee deu às crianças uma história própria: há alguns anos, um grupo de crianças cometeu um delito. Uma delas era filho do vizinho dos Finch. Para punir o filho, o pai decidiu que ele nunca mais sairia de casa e Boo, como era chamado, nunca mais foi visto em público. A criatividade das crianças locais, claro, tomou conta e Boo foi de menino problemático a adulto monstruoso. Será que ele tinha algum defeito físico? Será que havia ficado maluco? Scout, Jem e Dill – amigo que os visita no verão e personagem inspirado em ninguém menos que Truman Capote que foi amigo da autora – decidem que querem encontrar um jeito de tirar Boo de casa. Precisam vê-lo para saber no que acreditar.

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O livro se passa em 1936, no Alabama. Os estados sulistas, reconhecidamente escravocratas, tiveram problemas históricos em assimilar a população negra. A Ku Klux Klan já existia, mas mais em oposição aos judeus. Entre as décadas de 30 e 60, a KKK virou algo diferente: os rostos que antes ficavam à vista, agora eram escondidos. Na década de 50, os negros entraram no radar e passaram a ser o inimigo nº 1 da organização.

O sol é para todos tem uma cena icônica para nos mostrar quem, de fato, fazia parte da Klan: quando um grupo de homens locais vai até a estação policial para espancar Tom, Atticus é o único no local e está guardando a porta já antevendo que isso aconteceria. Não há nenhum policial à vista. Por mais que respeitem Atticus, os homens estão prontos para atacá-lo também por defender um negro. Nesse momento, Scout, Jem e Dill que tinham ido visitar Atticus, aparecem e Scout começa a falar com um dos homens – chamando-o pelo nome, lembrando que estudou com o filho dele. A ingenuidade infantil versus a crueldade dos adultos. Os homens vão embora, mas fica claro que a tensão vai escalar.

Esses homens, conhecidos por todos, trabalhavam na cidade, tinham famílias e iam à Igreja, e estavam prontos para lincharem um outro homem apenas pela cor de sua pele. A gênesis da Klan foi a conversão de homens comuns em criminosos balizados pelo ódio aos negros.

Enquanto as crianças decifravam os mistérios de seu “monstro” infantil e imaginário; a sociedade via nascer um monstro muito mais perigoso com alcance bem real.

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Calvino diz que um clássico é um livro que nunca terminou o que tinha para dizer. É um livro que poder ser lido 10, 20, 30 anos depois escrito e ainda ter algo relevante em seu conteúdo. “O sol é para todos”, certamente, se encaixa nessa categoria. De maneira muito simples, sem pregação instantânea, a obra nos alerta a esse monstro que às vezes adormece mas, aparentemente, não morre. E ainda se alimenta de sangue e ódio.

O livro é narrado por Scout que aproveita para dividir com os leitores as lições do pai. Atticus ensina aos filhos o que ninguém tinha coragem de dizer em voz alta – que racismo é errado, que ninguém merece ser preso ou morto apenas por ser negro. Scout e Jem crescem com uma idéia totalmente diferente do que parecia ser o senso comum da época.

A condução de uma história desse nível não podia ser feita desajustadamente. Lee tem uma qualidade de escrita que permite nos mostrar, sem monotonia, os resultados terríveis de uma sociedade racista. Isso sem citar em momento nenhum organizações como a Klan ou até mesmo usar a palavra racismo. E isso funciona para atrair públicos diferentes: crianças podem ler o livro como uma aventura, recheada de mistérios. Adultos podem ler o livro como uma fotografia de tempos terríveis. Infelizmente para nós, essa fotografia continua tão atual quanto quando o livro foi escrito.

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3 Comentários em “Resenha – O sol é para todos”


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Ingrid em 03.08.2019 às 10:48 Responder

Estou impressionada, que texto maravilhoso!
Estava em dúvida se leria esse livro, agora tenho certeza que devo ler!
Suas palavras foram maravilhosas!

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Patricia em 03.08.2019 às 15:05 Responder

Oi Ingrid!! Obrigada por nos visitar e deixar esse comentário lindo. =D
Espero que goste do livro. É uma leitura fluida e muito marcante.
Conte depois o que achou. 😉

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Priscila Brito de farias em 13.08.2019 às 00:38 Responder

Achei maravilhoso esse livro


 

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