Resenha – O som do rugido da onça
por Juliana Costa Cunha
em 21/06/21

Nota:

No início do Séc XIX o zoólogo Johann Baptist Spix e o botânico Carl Friedrich Philipp Martius, inspirados pelas viagens feitas muitos anos antes, por Alexander Von Humboldt pela América do Sul, se aventuraram aos mares rumo à nossa floresta amazônica. A história amplamente contada é que Spix e Martius, estudaram nossas espécies nativa – fauna e flora e são responsáveis pela divisão do território brasileiro nos cinco biomas que conhecemos ainda hoje. E este feito, entre outros dessa dupla, é contado com grande pompa e circunstância, sempre enaltecendo a incrível façanha desses dois pesquisadores.

O que começa a se descortinar, a partir dos estudos decoloniais, é esta visão eurocêntrica da nossa história. E começamos a entender, na verdade a evidenciar, que o que houve na verdade foi uma invasão de nossas terras e roubo de nossos recursos naturais e humanos. Entre eles crianças indígenas.

É desse ponto que Micheliny Verrunschk parte e nos presenteia com o seu incrível O som do rugido da onça. Aqui temos como protagonista a menina Iñe-e. Índia, com não mais que 5 anos, que é dada por seu pai a esses dois exploradores europeus, embarcando numa viagem junto com mais outras crianças indígenas também retiradas de suas famílias. Nesta viagem muitas delas não resistem, morrendo ao longo do percurso devido às péssimas condições em que era alojadas e alimentadas. A outra criança que resiste a este calvário é o menino Juri.

A leitura é de causar embrulhos no estômago, sabendo que história tão inverossímil aconteceu de fato. E não apenas uma única vez. Com base em um estudo riquíssimo sobre o episódio e mesclando isto a fatos romanceados, Micheliny nos entrega um livro potente. Um livro denúncia.

A voz narrativa da menina Iñe-e ganha força à medida que sua própria vida se esvai. E é esta menina que se comunica com a mata e com a onça. É ela que, em sua terra, tinha o rio como força motriz e os recursos naturais que a guiavam. Levada para um castelo na Alemanha, fica cada vez mais distante de força. Cada vez mais distante do som do rugido da onça. Essa polifonia entre o real e o mítico é uma outra grande sacada da autora. O livro é recheado pelo encanto e a força dos povos nativos, apesar de tanta dor.

A autora faz uso de várias vozes e tempos distintos em sua narrativa. Trazendo uma perspectiva do tempo como dobra, e não como uma sequência entre passado, presente e futuro. Esta perspectiva nos dá a dimensão das linhas entrelaçadas da história. Dos fatos que se cruzam e que chegam até nossos dias atuais. E de um passado que, quando não bem resolvido, ressurge para cobrar sua parte.

A ideia de escrever esta história surgiu quando a autora foi a uma exposição em SP e deu de cara com as fotos de Iñe-e e Juri. O retrato dessas crianças expropriadas de suas terras e família. De suas histórias. E o que nos fica é o desejo que mais e mais pessoas possam se deparar com nosso passado, impactar-se com a história única ainda hoje narrada, e desbravar caminhos decoloniais que descortinem essa narrativa colonizadora.

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