Resenha – O talentoso Ripley
por Patricia
em 13/07/15

Nota:

Unknown

Tal como aconteceu com Clube de Luta, assisti a adaptação de O talentoso Ripley para o cinema antes de ler o livro. Já faz alguns anos e a adaptação que vi foi a com Matt Damon de 1999. Gostei muito do filme – e preciso revê-lo – e, por isso, tinha grandes expectativas para o livro. Além de já ter ouvido falar maravilhas de Patricia Highsmith.

O livro nos conta a história de Tom Ripley – um trambiqueiro que sobrevive aos trancos e barrancos com pequenos golpes. Ele vive com o constante medo de ser encontrado e preso. A primeira cena do livro é Ripley sendo seguido por, ele acredita, um policial disfarçado. Para seu alívio, porém, nada mais é do que um pai desesperado para encontrar seu filho.

O Sr. Greenleaf, um milionário que vive da construção e venda de barcos, quer ajuda para encontrar seu filho – Dickie – e trazê-lo de volta para casa. Dickie mudou-se para a Europa e vive dos cheques do pai. Na tentativa de ser artista, acabou virando um bon-vivant. Nem mesmo a séria doença de sua mãe o faz reconsiderar sua decisão de não voltar para casa.

Greenleaf, acreditando que Tom é amigo de Dickie, pede que Tom o ajude. Se oferece para pagar todas as despesas para que Tom vá para a Europa e convença Dickie e voltar para os Estados Unidos e tomar seu lugar na empresa da família. O que o Sr. Greenleaf não sabe, porém, é que Tom e Dickie mal se conhecem. Talvez tenham se visto uma ou duas vezes em alguma festa em que Tom entrou fingindo ser quem não era – um de seus muitos talentos. Para Tom, essa é uma oportunidade de ouro de fugir daqueles que querem prendê-lo e ainda conhecer a Europa sem gastar um tostão. O que poderia dar errado?

Quase tudo, como Tom vai descobrir ao chegar na Itália e encontrar Dickie vivendo a vida que Tom (e eu) “pediu a Deus”. Com isso, todas as características mais cruéis de Tom vão aflorar.

O talentoso Ripley foi escrito em 1955 e a obra se mantém como uma das mais famosas da autora. E há motivos para isso. A construção de Tom Ripley vai além de muita coisa que já li na Literatura Policial – e houve uma época em que eu só lia esse gênero por uma fixação em Agatha Christie (que continua a me dar olés até hoje).

Há, de fato, cenas em que quase nada acontece. Podemos apenas acompanhar uma linha de pensamento de Tom – que por si só pode ser algo assustador. A grande sacada de Highsmith é colocar o ponto de vista não do mocinho ou do detetive – mas sim, do criminoso. Tudo o que lemos é do ponto de vista de Tom: como ele racionaliza seus crimes, como ele organiza cada pensamento para cumprir suas metas, como ele monta seus personagens, como ele mente. Em alguns momentos, o livro tem mais de drama psicológico do que de literatura policial. E isso acrescenta um “gostinho a mais” e dá ainda mais dimensão para a história porque Ripley é um excelente personagem. Sujo, baixo, cruel, maldoso e dissimulado, sim, mas um personagem que rende cenas audaciosas e inteligentes.

Todos esses aspectos do livro fazem com que o resultado seja não apenas uma história impossível de largar, como também o tipo de história que se escrita hoje ainda seria diferente do padrão da literatura policial. Highsmith estava tão à frente de seu tempo com essa obra, que ainda não encontrei em minhas andanças pela literatura policial nada como o que li em O talentoso Ripley. Nem em estrutura, nem em qualidade.

A comparação mais comum é com Agatha Christie. Mas não me parece correta ou justa. Christie escreveu clássicos policiais dentro de uma fórmula já conhecida: o detetive (ou a Senhora boazinha) que sabe muito mais que qualquer criminoso. Eles conseguem ver pistas e encontrar respostas onde os meros mortais mal entendem as perguntas. Muitos escritores até hoje seguem essa mesma fórmula. Highsmith inverteu tudo isso ao colocar o foco no criminoso e mostrando o passo a passo de suas ações para o leitor que pode até mesmo “compreender” Tom. Uma autora que claramente seguiu esses passos com muita propriedade foi Gillian Flynn, que criou o mega sucesso Garota Exemplar utilizando-se, em parte, dessa nova maneira de mostrar um ponto de vista inesperado ao leitor. Porém, em sua primeira obra – Objetos Cortantes – a fórmula foi a mesma de sempre.

Agatha Christie e Gillian Flynn têm seus méritos e a literatura tem espaço para todo o tipo de fórmula. Enquanto os assassinos de Christie quase sempre aparecem como personagens secundários e mal têm voz, as personagens psicóticas de Flynn dão o tom de suspense ao livro e não são nem um pouco carismáticas. Highsmith, porém, foi uma das poucas que compreendeu que nada é mais assustador do que um criminoso simpático.

Postado em: Resenhas
Tags: , ,

Nenhum comentário em “Resenha – O talentoso Ripley”


 

Comentar