Resenha – O tribunal da quinta-feira
por Patricia
em 13/03/17

Nota:

Michel Laub já passou pelo Poderoso com o ótimo A maçã envenenada. Nessa obra, o autor utiliza o suicídio de Kurt Cobain como pano de fundo para o desenvolvimento de seus personagens. Ele faz um ótimo trabalho em usar um cenário contemporâneo para nos mostrar um pouco do que estava na alma de seus personagens.

Em O tribunal da quinta-feira, o autor faz algo similar, mas usando como pano de fundo a AIDS. Em 2017, não se fala tanto da AIDS como epidemia porque já existem diversos medicamentos que ajudam no tratamento da doença, além de mais conhecimento sobre prevenção e etc. Laub introduz o assunto através de seu amigo homossexual – Walter – que entendeu que  sua vida em Bariri – interior de São Paulo – estava ameaçada ao ver colegas espancando um travesti. Um outro ponto importante da história, é a questão da privacidade em tempos de mídias sociais.

Walter muda-se para a cidade grande e vai se tornar publicitário. É na faculdade que ele e José Victor, o narrador, se conhecem. Essa amizade vai durar décadas: 25 anos depois, os amigos se vêem a cada 2-3 semanas e trocam emails com breves atualizações da vida. JV (vamos simplificar), recém divorciado de Tereza, está explorando um novo relacionamento com uma redatora-júnior de sua agência – Danielle. O relacionamento, claro, deve ser mantido em segredo. Não apenas por ser uma relação de superior com colaboradora, ou porque JV é 23 anos mais velho que Danielle, mas também porque este relacionamento começou quando ele ainda era casado.

O divórcio foi traumático para ambos, ainda mais para JV que não conseguiu admitir para a esposa que tinha encontrado outra pessoa e carrega uma certa culpa. O problema é que Tereza encontra uma pasta deixada por JV  e dentro há uma lista de senhas de e-mails. Como JV não troca a senha a cada 3 meses como dizem que é o certo (um verdadeiro rebelde!), Tereza consegue acessar sua conta pessoal e lê as trocas de e-mail entre seu ex-marido e Walter (que também era amigo de Tereza e foi quem apresentou o ex-casal).

Ao descobrir que seu ex-marido a traía no final do casamento, Tereza decide expor trechos dos e-mails para algumas amigas. Claro que isso vira uma bola de neve e, rapidamente, JV, Walter e Danielle vêem suas vidas expostas na internet para estranhos julgarem e deixarem comentários aleatórios sobre o que pensam da situação sobre a qual nada sabem de verdade.

Sem ter a chance de contar seu lado da história na rede – e é o que JV vai fazer no livro – ele vira o marido traidor, sem moral, que acha graça quando seu amigo homossexual e HIV-positivo diz que vai sair por aí “procurando alguém para infectar” – Walter usava esse tipo de conversa no tom cômico de quem tenta lidar com algo inexplicável. Danielle vira a piranha que deu para o chefe para crescer na carreira apesar de trabalhar tanto quanto os outros e não ter sido promovida no período do relacionamento. Walter é um pederasta que merece apanhar na rua. No tribunal cheio de julgamentos definitivos da internet, quatro dias foram o suficiente para mudar a vida dos envolvidos no “escândalo” que ninguém sabia que existia.

A intolerância que Walter viu em sua cidade natal contra um travesti agora toma dimensões ainda maiores com a oportunidade de tudo ser compartilhado e validado por pessoas que pensam da mesma maneira, justificando e racionalizando o que talvez nunca tivessem coragem de dizer em voz alta antes.

 

Laub conduz o leitor pela história como quem está não apenas tentando se explicar, mas também como quem tenta entender o que aconteceu. Assim, vamos juntando as peças junto com José Victor até entendermos as nuances das histórias e o impacto do escândalo na vida dos envolvidos. Sem medo de abordar assuntos polêmicos, Laub nos permite uma reflexão sincera de quem somos na internet e o que testemunhamos diariamente nas caixas de comentários de nossas vidas.

Mais um autor brasileiro que, aos poucos, entra na lista de imperdíveis.

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O livro foi enviado pela editora. 

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