Resenha – O vendido
por Patricia
em 23/11/20

Nota:

**Aviso: a resenha pode conter spoilers

Lançado em 2015 nos Estados Unidos, O vendido fez de Paul Beatty o primeiro americano a vencer o Man Booker Prize, reconhecido prêmio literário britânico.

O livro abre com um julgamento: estamos na Suprema Corte dos Estados Unidos e Eu, nosso narrador, está sendo julgado por ter um escravo. Antes de sabermos o desfecho desse julgamento, o autor nos leva à fictícia Dickens, pequena cidade de Los Angeles conhecida como “a capital mundial do assassinato” em 200 hectares que foram destinados a agricultura urbana. Assim, Eu cresceu em uma fazenda no meio da cidade. Apenas ele e o pai.

O pai é uma figura controversa: um psicólogo que faz experimentos raciais usando o filho como objeto. Quando Eu tinha 8 anos, por exemplo, seu pai o levou para uma esquina e começou a bater nele para ver se os brancos o ajudariam. Não só os brancos não o ajudaram como os negros que passaram ajudaram no espancamento da criança presumindo que ele era ladrão. O pai havia “esquecido” de cogitar o efeito manada. Eu desmaiou. Quando acordou, todo quebrado, seu pai estava entrevistando os agressores e ele estava caído no canto.

Há ainda na cidade uma figura de certa fama: Hominy Jenkins que foi ator mirim na série de televisão Os batutinhas. Seu papel na série era ser o motivo das piadas e da violência do seriado. Apesar de ser uma grande promessa, Jenkins nunca emplacou na carreira e acabou vivendo sozinho em Dickens, aos poucos perdendo a cabeça. As crianças da cidade, Eu incluso, iam à sua casa quase diariamente para ver episódios antigos da série.

Então dois acontecimentos mudam tudo na cidade e na vida de Eu: primeiro, Dickens é excluída do mapa. De cidade passa a ser uma localidade, sem verba e sem governo. As placas que indicam a cidade na estrada desaparecem e é como se Dickens tivesse desaparecido em um enredo à la Stephen King. A segunda é a tentativa de suicídio de Jenkins. Eu chega na hora exata para salvá-lo.

Eu está seguro de que os dois acontecimento estão interligados. Com tanto de sua identidade ligada à Dickens, Jenkins parece ter perdido sua base quando a cidade “sumiu”. Então, ele decide recriar as fronteiras de Dickens. Mas com uma diferença: agora será uma cidade segregada. Cada raça terá seu lugar.

***

Beatty coloca muito humor criando uma sátira no ponto certo da cultura americana de racismo. Jenkins, em sua velhice, decide que quer ser escravo de Eu. Quando tudo que ele conhecia sumiu, ele se voltou ao que continuava conhecendo: a submissão.

Ao mesmo tempo, a historia é permeada por referências à cultura negra: de Rosa Parks a Jay-Z – provando que os negros deixaram sua marca criando grande parte do que é hoje reconhecido como “cultura americana”.

Ao criar uma cidade segregada, Eu percebe que muitas coisas começam a mudar para melhor. Ao se identificar com seu grupo e ser reconhecido por ele, o ser humano parece buscar dar o seu melhor a esse grupo. Talvez um polêmico estudo que seu pai aprovaria e que explique porque aceitamos um certo nível de segregação mesmo nas sociedades atuais. Nossas zonas de conforto nos levam a buscar nossos “iguais”. E mais, Beatty levanta o ponto de que, talvez, segregação seria algo que pudesse evitar a gentrificação.

Há uma crítica feroz ao sistema – e essas são as primeiras 100 páginas do livro. Antes de entrarmos em Dickens, Beatty nos apresenta tudo o que está errado já em larga escala nos Estados Unidos e em todos os níveis do sistema.

Basta passear um dia por Georgetown e Chinatown. Uma caminhada lenta pela Casa Branca, pela Casa Phoenix, pela Casa Blair e pelo cortiço do crack para a mensagem ficar bem clara. Seja na Roma antiga ou nos Estados Unidos de hoje, ou você é cidadão ou é escravo. Leão ou judeu. Culpado ou inocente. Tem conforto ou não tem. (pág. 10)

De fato, já vivemos em uma sociedade segregada. Ela apenas se disfarça de democracia e, no Brasil, pior ainda, levou o infame título de “democracia racial”.

“O vendido” é quase um estudo social – um livro cheio de camadas que, por si só, gerariam ensaios completos. Ainda assim, é um livro com uma leitura fluída, graças ao humor inesperado de Beatty. Há cenas doloridas baseadas em uma realidade violenta, mas há cenas tão surreais que não podemos evitar a risada.

Beatty aborda temas raciais desde sua primeira obra, The White Boy Shuffle, ele fala explosão de revolta em Los Angeles em 92 após o veredito de inocente aos policiais que espancaram Rodney King levando a cidade a dias de violência e sangue (falei do doc LA 92 aqui). Ou seja, o autor nunca fugiu de temas controversos e segue trazendo os assuntos mais importantes do nosso tempo para suas histórias.

Um daqueles livros que marca o leitor, faz pensar e rir ao mesmo tempo.

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