Resenha – Objetos cortantes
por Patricia
em 18/05/15

Nota:

Objetos Cortantes

Ano passado, li Garota Exemplar – um livro que superou bastante qualquer expectativa que eu poderia ter. Um thriller bem conduzido, cheio de suspense e personagens bem criados e desenvolvidos. Gostei tanto que até encarei o filme com o meu ator menos preferido do mundo – Ben Affleck. E gostei! O enredo do livro é tão forte que superou qualquer péssima atuação já esperada dele (nisso, vou dar o crédito, ele não falhou. A atuação dele no filme, conforme esperado, foi realmente de morna para ruim).

Objetos cortantes foi lançado na esteira do sucesso de Garota Exemplar apesar de ser o 1o livro escrito por Gillian Flynn. Mas já em sua primeira obra, é possível ver nessa obra a capacidade da autora para criar surpresas a ponto de deixar o leitor no limite o tempo todo.

Em Objetos cortantes, é de Camilla Preaker o ponto de vista que vamos acompanhar. Ela acaba de sair de um hospital psiquiátrico e tenta reconstruir a vida trabalhando como jornalista para um jornal secundário de Chicago. Entre as questões que a levaram a um tratamento psiquiátrico, está um desejo intenso de se cortar. Camilla tem o corpo inteiro coberto de cicatrizes que cultiva desde sua adolescência. Por isso, ela anda coberta o tempo todo não importa o clima.

A história começa a ganhar fôlego quando seu editor a envia para sua cidade natal – Wind Gap – para apurar uma possível reportagem exclusiva: uma menina foi assassinada e outra está desaparecida. A polícia parece perdida e a pequena cidade está embasbacada com a possibilidade de ter um serial killer por perto. Apesar de não ser próxima da mãe, do padrasto e nem da meia-irmã, Camilla acaba se hospedando com eles enquanto apura os fatos para sua história.

A partir daqui, tudo vai se enrolar: a história pessoal de Camilla, seus atritos com a família e seus problemas sérios começam a vir à tona enquanto ela tenta desesperadamente entender o que acontece na cidade. Sua mãe a trata como uma estranha e seu padrasto é quase um boneco sem vontade e sem personalidade. Sua meia irmã é a grande surpresa: aos 13 anos é uma manipuladora de primeira. Em casa, é exatamente a menina bonitinha que a mãe quer, na rua é quase uma vixen que comanda o que poderia ser considerado uma gangue de meninas adolescentes (que eu diria é um dos top 3 piores tipos de gangues que existem).

A família que Camilla já achava estranha e difícil vai se mostrar completamente disfuncional.

Como qualquer livro do gênero, falar muito da trama pode estragar as surpresas que a autora joga no caminho. Aqui, como em Garota Exemplar, o que temos são personagens femininas fortes que roubam a cena. Elas comandam todas as ações e os homens são periféricos e, muitas vezes, sem gosto e fáceis de esquecer. Flynn subverte muito bem a norma de enredos como esse em que, normalmente, as mulheres é que são acessórios, além de vítimas. A autora  é uma maestra no desenvolvimento de mentes femininas doentias. O que, pessoalmente, gosto bastante.

Me lembro de uma piada de Loius C.K, um dos maiores comediantes da atualidade, em que ele comenta sobre as diferenças entre homens e mulheres (tradução literal):

Meninos vão estragar as coisas, meninas são estragadas. Essa é a diferença. Meninos vão destruir sua casa e você pode medir isso em dinheiro – como um furacão. Meninas vão deixar cicatrizes na sua psique que você só vai descobrir depois, feito um genocídio…Essa é a diferença. E se torna a diferença entre homens e mulheres, na verdade. Um homem vai roubar seu carro ou incendiar sua casa ou te encher de porrada, mas uma mulher vai acabar com a sua vida. Percebem a diferença? Um homem vai cortar seu braço e jogar no rio, mas vai te deixar intacto como ser humano. Ele não vai mexer com quem você é. Mulheres são menos violentas, mas elas vão cagar dentro do seu coração.

Isso para mim, tende a ser a grande surpresa com boas histórias em que mulheres são psicopatas. Não é necessariamente o que a audiência espera. Como Glenn close em Atração Fatal. E quando bem feitas, mulheres rendem excelentes personagens psicóticos. Enquanto lia o livro, fiquei o tempo todo com aquela sensação de “alguma coisa ruim vai acontecer”. A autora consegue criar toda uma atmosfera de suspense que não deixa o leitor desgrudar da história. Apesar de conseguir pescar algumas coisas antes do final, a conclusão do livro me surpreendeu.

Objetos Cortantes é uma estréia muito sólida. Prova disso foi o que veio logo depois e realmente acho Garoto Exemplar melhor. O primeiro livro serviu de lição de casa para o próximo. Existe uma evolução clara de um para o outro. Sem perder tempo, a Intrínseca já lançou Lugares Escuros que também segue um drama familiar que vira algo mais e foi lançado originalmente em 2009, também antes de Garota Exemplar.

Finalmente uma boa autora de suspense que consegue trabalhar a mente insana feminina de maneira satisfatória, sem clichês bobos criando personagens sólidas, quase reais demais. Prretendo acompanhar de perto.

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