Resenha – Os detetives selvagens
por Poderoso
em 30/07/21

Nota:

Por Gabriel Pinheiro – Instagram: @tgpgabriel

Não há nada que eu possa escrever que dê conta da magnitude de “Os detetives selvagens”. Na verdade, escrever sobre a obra de Roberto Bolaño é sempre um desafio pra mim. Apenas tateio, num exercício de tentar compreender a força de uma literatura única, um olhar cru e minucioso sobre a realidade. Uma visão crítica e melancólica sobre o idealismo político da juventude, sobre a América Latina e sobre o próprio ato literário.

“Os detetives selvagens” é composto por dois livros – que funcionariam bem até separados, mas que se complementam de uma maneira única. Não se explicam, mas se aproximam em suas lacunas, vazios, espaços que demandam do leitor um gesto ativo de construção de sentido, assim como os detetives que dão título ao livro.

De início um diário, que compõe a primeira e a terceira parte da obra. No meio, uma segunda parte, maior, composta por uma série de depoimentos de uma infinitude de personagens. Não sabemos pra quem depõem. Sabemos menos ainda sobre aqueles que são o foco destes depoimentos: os poetas Arturo Belano e Ulises Lima.

Bolaño desenha o retrato de uma cena literária underground na capital mexicana de 1970 – mais especificamente de um movimento chamado “real-visceralismo” e os diferentes poetas, escritores que o integram – , onde García Madero – autor do diário – circula entre seus pares por diversos espaços: cafés, bares de aparência deprimente, quartos de pensões e águas furtadas onde mal cabem uma pessoa.

Por esses ambientes ele conhece e se relaciona com os dois “detetives selvagens”, Ulises e Arturo – figuras de liderança no real-visceralismo. Há nesses lugares uma constante névoa – de fumaça de marijuana, do vapor que sobe das inúmeras xícaras de café -, mas há também uma outra, mais opaca, encobrindo estes dois personagens, figuras sempre fugidias

Na parte dos depoimentos, um sem número de personagens contam, por vezes brevemente, por outras minuciosamente, seus encontros com Arturo e Belano. Encontros no México, em Barcelona, em Paris, em Tel-Aviv, na Nicarágua. Por vários momentos seus discursos fogem destes dois personagens e dizem sobre si, dizem sobre tudo e, porque não, dizem sobre o nada.

Há uma sensação de melancolia profunda aqui, neste retrato de uma época, de um grupo de jovens poetas, presos num clima de tensão política. São personagens que não se encontram, deslocados, sem lugar, em exílio. Os detetives desapareceram. A última notícia que temos é de que estavam à procura de Cesárea Tinajero, uma desconhecidíssima poeta mexicana e provável liderança de uma primeira versão do movimento real-visceralista, nos anos 20.

Se os detetives empreendem uma busca por uma poeta sobre a qual têm poucas informações, nós, leitores, buscamos também juntar as poucas pistas que nos são oferecidas sobre Belano e Lima. Tentamos construir um quebra-cabeça com peças faltantes. Personagens de incompletude.

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