Resenha – Os filhos do Jacarandá
por Patricia
em 29/06/15

Nota:

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Nos últimos anos, temos visto a religião ter um papel cada vez mais proeminente em nossas vidas. Seja em discussões constantes no Facebook, seja em novas leis que políticos evangélicos tentam passar, seja em pastores vindo à público condenar..bom, basicamente tudo. É quase impossível estar alheio a esse debate, mesmo se você, como eu, não seguir religião nenhuma. Me parece que aprendemos cada vez menos com os países Islâmicos os danos do fundamentalismo. E isso vale para todos os lados.

A resenha de hoje trata desse tema de uma maneira muito mais humana do que tenho visto nesses debates. Este foi um livro que comprei sem muitas pretensões e me chamou a atenção pela capa lindíssima e o fato da autora ter nascido no Irã, onde a obra é ambientada. Me fez pensar se haveria qualquer tipo de ligação entre essa obra e o excelente Persépolis de Marjani Sartrapi que se passa no mesmo país. Logo descobri que sim.

Em 1979, o Irã sofreu uma reviravolta: com a queda do Xá, houve um breve momento de esperança. Porém, quando a Revolução ocorreu, o Xá caiu para que um aiatolá assumisse transformando o país de monarquia a república islâmica. Rapidamente, a população começou a sentir os efeitos da mudança: prisões eram decretadas a todos os que discordavam do regime em público, ativistas eram torturados e mortos, pessoas desapareciam e tudo aquilo mais que conhecemos bem em nossa própria História recente.

A história de Filhos do Jacarandá começa em 1983 e a primeira cena nos apresenta a Azari: grávida, prestes a dar a luz, ela está sentada em uma van indo para o que rapidamente descobrimos que é uma prisão. Sua bolsa estoura e acompanhamos sua via crucis das dores do parto, quando ela é forçada a subir escadas e a responder a um interrogatório (sim, enquanto sente as contrações) e a ter um parto normal sem qualquer escolha ou remédios ou conforto. Acompanhada sempre de uma Irmã – sua carcereira – a jovem mãe dá a luz da maneira mais desumana possível.

A Irmã estava em pé junto à médica, observando em silêncio. Azari se recusou a olhar para ela. Recusou-se a admitir a presença da Irmã ali, queria esquecê-la de todo. Não só a Irmã, mas tudo o que a presença da Irmã representava: a prisão de Azari, a solidão, o medo, o parto numa prisão. Era agora uma estrangeira, cercada de pessoas que a viam como uma inimiga a ser subjugada e vencida, que viam sua própria existência como um obstáculo ao seu poder, às suas próprias noções de certo e errado, moral e imoral. Pessoas que a detestavam porque ela se recusava a aceitar o que lhe ofereciam como se fosse aquilo pelo qual ela lutara; pessoas que a viam como adversária porque ela se recusava a aceitar que o Deus delas pudesse ter todas as respostas. [pág. 13]

A partir daqui, o enredo vai e volta no tempo para ir contextualizando o leitor em outras histórias que se cruzam. Além de Azari, conhecemos Leida, Maryam, Sheida, Sara e outras mulheres que em diferentes momentos da vida foram vítimas do mesmo fundamentalismo. Cada uma, em seu momento, será obrigada a enfrentar a realidade brutal de um regime impiedoso que mudou para sempre suas vidas.

Desde a revolução, todos, da noite para o dia, tornaram-se irmãos e irmãs. Um país inteiro feito de irmãos sem relação de parentesco, observavam-se uns aos outros, às vezes com medo, às vezes com desconfiança, suspeita, demonstração de força e desprezo. ‘Eu não sou sua irmã!’, Leila gostaria de gritar. [pág. 49]

Claro que o livro poderia ser uma longa novela (no sentido de dramalhão) ambientada no Irã. Um enredo como esse, se mal conduzido poderia deixar o leitor com a sensação de que estaria lendo algo desenhado para emocionar da maneira mais superficial possível. Para nossa sorte, porém, Sahar Delijani escreve com tanta delicadeza a história de cada uma das mulheres que criou, que é impossível não se sentir tragado pelo sofrimento, pelo desespero silencioso de cada uma, pela revolta por suas condições. E esse é o grande trunfo da autora. Usando de sua própria experiência pessoal e de pessoas que ela conhece, todo o enredo do livro ganha uma humanidade inegável. Na história de Azari, Sahar nos conta sua própria. A autora nasceu em uma prisão e, exatamente como a pequena Neda,  poucos meses depois de nascer foi entregue aos avós para ser criada enquanto a mãe continuava presa.

De fato, em entrevista ao Guardian, a própria autora explica que o livro tem diversos elementos de histórias de sua própria família. Isso resultou em uma obra que talvez tenha sido sua maneira de se reconectar com suas raízes tão quebradiças; algo que algumas de suas personagens também enfrentaram ao descobrir a verdade sobre parentes que perderam há muito tempo.

Filhos do Jacarandá é um livro visceral. Daqueles que seria impossível escrever sem que a autora tenha enfrentado muitos demônios próprios e, nesse livro, o leitor é convidado a ver de perto o resultado dessa luta. Belíssima obra que expõe todas as cicatrizes de uma Revolução Fundamentalista em um país marcado por fanatismo e permeado por mulheres que carregam, até hoje, as marcas dessa História.

Trechos selecionados:

Em quarenta e cinco dias, Amir aprendeu como era o cheiro de carne podre. Dia após dia, imundície após imundície, interrogatório após interrogatório, em que as mesmas acusações, perguntas e ameaças se repetiam como um pesadelo sem começo ou fim, ele era ensinado a se sentir como um animal. Um animal miserável, fedorento e cego, sem ter o que esperar, exceto pelo passar das horas, por receber alguma comida e por ser levado ao banheiro para se aliviar. [pág. 84]

***

Chegaram as visitas. São todas mulheres. Os poucos homens que vieram mais cedo saíram depois de uma cerimoniosa meia hora. Porque ali não é lugar para homens. Aquela casa é um reino de mulheres. Desde a morte de Aghajaan, as mulheres reinaram naquela casa sem que qualquer pessoas ou qualquer coisa lhes atrapalhasse o caminho. Com o passar dos anos, mulheres da vizinhança começaram a buscar abrigo ali. Mulheres que não tinham para onde ir. Todas acabavam naquela casa: jovens mulheres fugindo dos maridos, meninas fugindo de casa, mulheres que não sabiam onde deixar os filhos. A casa era um refúgio, onde ninguém poderia persegui-las. [pág. 120]

***

“E se for verdade? Um pai executado, enterrado em uma vala comum. Há tamanho peso histórico por trás de algo assim que Valério se sente enfraquecer. Nunca ele passou por qualquer experiência daquele tipo, nem ninguém que conheça. Para ele, valas comuns pertenciam ao passado, a livros sobre a Guerra Civil Espanhola e a filmes sobre o período fascista. Mas não agora, não nesta vida, não tão perto, não com Sheida; não se espera que a história entre em sua casa.” [pág. 148]

***

[…] Porque segredos roubam a infância. Eram histórias de morte, de homens e mulheres pendurados na forca. A infância se esvai quando a morte se instala. [pág. 229]

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