Resenha – Os infiltrados
por Patricia
em 31/03/14

Nota:

infiltrados

Esse ano, me dei alguns projetos que considero importantes para a minha formação não apenas como leitora, mas como pessoa atuante no mundo. Um deles é o #LeiaMulheres (para qual o Poderoso dedicou uma página onde vocês podem encontrar facinho resenhas das autorAs que já passaram por aqui) e o outro é ler mais livros sobre o tenebroso período da Ditadura.

Em 1 de Abril, temos o aniversário do Golpe Civil-Militar de 1964. Há 50 anos, o Brasil iniciava um período obscuro de sua História com, como Christopher Hitchens definiu em seu livro Hitch 22, um dos ‘regimes mais sangrentos da América Latina’. Enquanto muitos de nossos vizinhos compartilharam do mesmo destino, nosso país parece ser um dos poucos que ainda não conseguiu iniciar o processo de cura de algumas de suas cicatrizes mais profundas.

Com o início do Estado Democrático, estudos, opiniões, entrevistas, livros, pesquisas e etc. sobre esse período puderam ver a luz do dia. Há muito que ainda não sabemos, mas já é possível remediar parte disso com a quantidade de material que, aos poucos, está sendo disponibilizada para o cidadão comum. Por isso, esse mês todas as minhas resenhas nas 2as serão destinadas a livros e filmes sobre o tema.

O primeiro livro vai tratar de um assunto espinhoso até hoje: os agentes militares infiltrados nos movimentos de esquerda. Confesso que a terminologia P2 me era estranha até Junho do ano passado, quando ouvi casos de policiais infiltrados nas manifestações do Movimento Passe Livre para prender manifestantes e/ou começar atos violentos que deveriam ser atribuídos ao movimento. Isso prova que a tática segue ativa e operante nos dias de hoje.

O primeiro infiltrado disposto a contar seu lado da história é Toninho do Incra (nome de guerra) que operou no, então incipiente, Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (hoje MST). A exigência de reforma agrária contrariava os interesses do Governo da época (e, sejamos honestos, de todos os que vieram depois) e ele trabalhou tentando minar as lideranças do movimento. Isso incluía chantagem, manipulação e tudo o mais digno de enredos policianescos de Hollywood.

Temos outro, Giordani, que infiltrou-se nos movimentos estudantis e explica que seu treinamento consistiu de um mês em Brasília, no curso de Operação de Informações onde aprendeu, entre outras coisas, técnicas de defesa pessoal – eufemismo usado pelos militares para ‘matar sem fazer barulho’.  Giordani é autor do livro ‘Brasil Sempre’ – a resposta militar ao ‘Brasil Nunca Mais’ de Paulo Evaristo Arns.

Um dos capítulos mais interessante é o que temos um infiltrado que virou torturador e hoje é possível encontrar provas mais do que suficientes sobre seu sadismo: Artur Paulo. Um dos autores do livro encontrou-o (porque ele está vivo e saudável) e fez a pergunta que não quer calar: torturou ou não torturou? Ele nega e se diz, até hoje, vítima da ‘paranóia da esquerda’.

Ao final de cada capítulo, um dos autores explica como fez para organizar as informações que constam ali. Essas passagens confirmam a veia jornalística do livro. Além disso, colocando entrevistas de ambos os lados, os autores deixam o contexto da análise para o leitor. (Se essa forma de jornalismo imparcial, que busca prover informações e não opiniões pegar, vai ter muito jornal fechando nesse país).

Cada jornalista ficou responsável por um capítulo que serve como uma peça do quebra-cabeça que eles se dispuseram a montar. O foco das entrevistas são os infiltrados, ou cachorros – como eram chamados, que vivem hoje no Rio Grande do Sul. Mas é claro que eles são apenas uma amostra do que foi reproduzido por todo o país naquela época. Todos os entrevistados defendem seus serviços, dizem não se arrepender e, como de praxe, negam participação em qualquer ato de tortura que tenha resultado na morte de seus alvos.

‘Os infiltrados’ é uma ampliação de uma matéria originalmente publicada no jornal Zero Hora – que montou um site com informações, fotos, nomes completos e musiquinha de filme de suspense. O fato de muitos infiltrados terem aceitado não apenas revelar seus nomes verdadeiros, mas serem entrevistados oficialmente, pode ser algo muito positivo em um país que ainda carece de informação sobre o que aconteceu no subterrâneo da Ditadura.

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Outros posts sobre o assunto que já passaram pelo Poderoso:

*Resenha – Diário de Fernando 

*Resenha – O outro lado do poder 

*Filme – O dia que durou 21 anos

*Filme – Cidadão Boilesen

*Filme- Mariguella

*Filme- O que é isso companheiro?

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