Resenha – Os Lança-Chamas
por Ragner
em 30/09/14

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Tal livro eu deveria ter resenhado mês passado. Tive tempo para isso, mas logo que engatei a leitura, fiquei tão emocionado e interessadamente envolvido que quis saborear o máximo possível. Decidi ler moderadamente, degustando cada página, capítulo à capítulo, uma narrativa que expunha acontecimentos fictícios dentro de contextos reais. Comecei a ler entendendo que de alguma forma era um livro histórico, com situações desenvolvidas na década de 70, entre movimentos e agitações culturais nos E.U.A e na Europa.

Estou tão acostumado com escritores masculinos, que ler Rachel Kushner foi uma surpresa sem precedentes. Já li outras mulheres, já li literatura juvenil e até mesmo adulta escrita por elas, mas narrativa tão desafiadora e protagonista tão feminina e feminista ainda não tinha tido o prazer de conhecer. Antes mesmo da página 100 já estava apaixonado pela personagem principal. Da mesma maneira que gosto bastante de protagonista homens com falhas e verossímeis, fiquei fã de Reno e sua moto. Uma personagem com um furor artístico e paixão pela aventura que me interessou bastante.

O livro passa os primeiros capítulos introduzindo alguns personagens e trabalhando suas interações, vai deixando claro quem é quem. Somos apresentados a Reno e seguimos sua vida, entre presente e passado, entendendo como conheceu seus amigos e como chegou até a cidade de Nova York, quem ela é, porque se interessa por arte e sua paixão por velocidade. Alguns trechos oscilam entre muito bons e nem tão interessantes, mas tudo vai se mostrando necessário e vai construindo um entendimento maior sobre todo o enredo e a narrativa ajuda bastante. O envolvimento de Reno com pintores, escultores, fotógrafos e videomakers vai transformando-a em uma pessoa mais madura, independente, mulher, feminista e passional.

Em Nova York, Reno conhece e se envolve com Sandro Valera, um artista rebelde, renomado, mais velho, mais vivido, cheio de contatos e que se distanciou da família, quase renegando seu passado. E aqui somos apresentados a outra parte da história que se desenvolve muito bem e com bastante detalhe e é sobre a família Valera. O patriarca (Sandro é o filho caçula), vai versando sobre seu própria passado. Se aventurara no Brasil atrás de borracha, para fabricar pneus, passa a fabricar motos até a família criar um império na Itália. Quando Reno decide participar de uma competição de velocidade com a intenção de fotografar sua performance, Sandro consegue uma moto para ela. Durante uma volta mal sucedida e um acidente que a deixa machucada, ela passa alguns dias com a equipe que representa a empresa italiana e vai aprendendo um pouco mais sobre os Valera.

 

Rachel_Kushner-perfilcor

 

A escrita de Rachel não somente flui com leveza como também com energia e as alternâncias de lugares, estrondos culturais, momentos mais tensos ou mesmo brandos estão perfeitamente equilibrados. O enredo trabalha a passagem dos anos e vai constituindo mudanças nos próprios personagens, o que é fantástico quando o escritor consegue trabalhar tão bem tais aspectos. Há toda uma reflexão acima de ocasiões cotidianas, todo um pensamento argumentativo em relação à situações que todos nós podemos viver e isso dá um peso maior à narrativa e posso dizer com grande alegria que a leitura desse livro me fez ficar mais interessado em ler mulheres.

 

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O livro foi enviado pela editora. 

SELO BLOG

 

 

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2 Comentários em “Resenha – Os Lança-Chamas”


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Cláudia+Oliveira em 01.10.2014 às 05:33 Responder

Eu achei a escrita muito boa mas não consegui gostar da protagonista.

Ragner
Ragner em 01.10.2014 às 13:47 Responder

E gostei bastante. Gostei mais em alguns momentos, menos em outros, mas me agradou demais ler um livro com uma personagem principal mulher retratada dessa maneira.


 

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