Resenha – Os transparentes
por Juliana Costa Cunha
em 31/08/21

Nota:

Odonato virou as mãos para si mesmo e falava olhando só para elas

– um homem, para falar dele mesmo, fala das coisas do início… como as infâncias e as brincadeiras, a presença dos tugas e as independências… e depois, coisa de ainda há pouco tempo, veio a falta de emprego, e de tanto procurar e sempre a não encontrar trabalho… um homem para de procurar para ficar em casa a pensar na vida e na família. no alimento da família. para evitar as despesas,  come menos… um homem come menos para dar de comer aos filhos, como se fosse um passarinho… e aí me vieram as dores no estômago… e as dores de dentro, de uma pessoa ver que na crueldade dos dias, se não tem dinheiro, não tem como comer ou levar um filho ao hospital… e os dedos começam a ficar transparentes… e as veias, e as mãos, os pés, os joelhos… mas a fome foi passando:  foi assim que comecei a aceitar as minhas transparências… deixei de ter fome e me sinto cada vez mais leve… estes são os meus dias…

Ondjaki possui uma escrita marcante e poética que já me encantou em outros momentos. E já esteve aqui no Poderoso – aqui e aqui. Difícil ler Ondjaki e não querer voltar a ele. O autor faz uso das palavras em minúsculas no seu texto, sem uma pontuação tradicional e com parágrafos extensos que, por si só contam uma história própria. Mas que se conectam com as demais.

Aqui Ondjaki nos convida a conhecer Luanda, lugar de suas vivências e memórias afetivas, onde as pessoas enfrentam um cotidiano cruel tentando encontrar a beleza nele. Aqui o autor não deixa passar o contexto político e a corrupção latente, fruto do capitalismo que engole e transforma tudo.

Há neste livro uma personagem que, em sua anatomia é estática e inerte, mas que nas palavras do autor ganha vida, sensações e sentimentos. Compõe paisagem e a vida das diversas pessoas que o habitam. O começo do livro nos deixa restrita a este cenário. A este conjunto de pessoas amontoadas neste espaço físico e muito característico de um processo de favelização vertical.

À medida que as pessoas que habitam este prédio vão sendo apresentadas, os horizontes vão se ampliando e o cenário do livro também. Passamos a caminhar pelas ruas de Luanda e conhecer sua gente e seus caminhos. E esse caminho se dá numa Luanda pós-independência. Apresentando as dificuldades enfrentadas por um povo que foi colonizado e que passa a tentar caminhar com suas próprias pernas, enquanto governo e nação.

Odonato é o único personagem com um nome comum. As demais personagens possuem nomes tão poéticos, quanto alusivos às suas condições de vida ou características. Odonato tem este nome, talvez, para se contrapor à sua condição incomum. Odonato vai tornando-se transparente. E essa condição se dá apenas com as pessoas simples da cidade e do prédio. É uma imagem tocante criada pelo autor e que nos fala das pessoas sem real condição de alterar seus caminhos e melhorar suas condições de vida. Nesta Luanda, as pessoas transparentes estão assim pela fome, pobreza e pelo desemprego.

O apagamento das personagens em Os Transparentes é tocante, mas escrito de forma lírica e poética, que nos leva a refletir sobre nossas próprias condições enquanto seres humanos e enquanto sociedade. Esta foi uma releitura que me trouxe novos olhares para esta obra. Talvez um olhar mais cuidadoso para as denúncias relatadas, para além da poesia existente na narrativa.

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