Resenha – Pão de Açúcar
por Juliana Costa Cunha
em 09/09/21

Nota:

Uma travesti brasileira que morava nos escombros de um prédio inacabado, na cidade do Porto em Portugal, foi brutalmente assassinada. O ano era 2006 e seu nome Gisberta. O prédio em questão é conhecido (e existe em ruínas até hoje) como o Pão de Açúcar. Um nome que nos remete à doçura ou mesmo a paisagens bonitas, se pensarmos no pão de açúcar no RJ, mas que foi lugar de última morada para esta travesti, depois de muitas andanças e sofrimentos, passou a viver em situação de rua. Importante dizer que Gisberta saiu do Brasil aos 18 anos, fugindo do alto índice de violência em nosso país contra travestis e transexuais. Seu assassinato se deu quando tinha 45 anos.

No livro, escrito pelo português Afonso Reis Cabral, essa história não é narrada em seus detalhes e nem sob a perspectiva da Gisberta. O autor partiu dessa história real e chocante, para ficcionalizar o assassinato dela por um grupo de adolescentes entre 12 e 15 anos. A voz narrativa, portanto, não é a de Gisberta e sim de um desses garotos. Um recurso que considero pertinente, tendo em vista as questões relativas ao lugar de fala na narrativa.

Rafa, nosso narrador, é quem descobre Gisberta enquanto passeava pelo Pão de Açúcar em uma de suas escapadas. Ela se abrigava no subsolo deste prédio em ruínas. Nesse período ela já estava muito adoecida. A partir deste encontro há uma aproximação entre os dois e um misto de repulsa e curiosidade por parte de Rafa. Desse encontro em diante a narrativa se dá entre passado e futuro, destas duas personagens centrais. E vai crescendo em contexto e personagens, à medida que Rafa chama seus amigos para conhecerem Gisberta. Não para conhecerem sua amiga, mas para “ver um gajo com mamas”.

O que acompanhamos a partir deste momento é um grupo de adolescentes que vive em um contexto social já bastante disruptivo, que tenta, de sua maneira, encontrar afeto e formas de sobrevivência. Passamos a acompanhar uma narrativa repleta de paradoxos, do ponto de vista ficcional criado pelo autor. Esses adolescentes que encontraram Gisberta, tiveram com ela uma certa relação de cuidado (levavam comida para ela) e em duas semanas a assassinaram brutalmente. É este paradoxo que chamou atenção do autor. Lembrando sempre que o que foi narrado pelo autor nessas duas semanas, é ficção. De fato, não sabemos o que se passou nessas semanas entre os garotos e Gisberta.

Penso que o autor conseguiu imprimir o sentimento dúbio dos garotos. E conseguiu me colocar nesse lugar da dubiedade. Ao mesmo tempo que tinha repulsa com o caminhar da história e onde ela estava chegando, me compadecia de Rafa e seu bando. Por outro lado, a narrativa de Rafa sobre fatos e sentimentos não é confiável em momento algum.

Acho que o livro tem uma questão ou outra que nos coloca frente a frente com a transfobia na narrativa. A proferida pelos personagens e aquela criada pelo autor em seu texto. As das personagens são totalmente compreensíveis e estão dentro do contexto narrado. As criadas pelo autor, como as cenas do passado de Gisberta, trazem em si passagens do imaginário cisnormativo e, nesse caso, não podemos desvincular a obra e seu autor. Entretanto, penso que estas passagens não tiram o caráter de denúncia sobre o transfeminícidio ocorrido a Gisberta, colocando este livro como uma importante leitura sobre o tema na nossa contemporaneidade.

Postado em: Resenhas
Tags: , ,

Nenhum comentário em “Resenha – Pão de Açúcar”


 

Comentar