Resenha – Patriotismo
por Juliana Costa Cunha
em 01/06/20

Nota:

Gostaria de começar esta resenha informando às pessoas que ela pode conter gatilho e, portanto, a obra em questão idem visto que aborda o tema do suicídio.

Yukio Mishima é um dos autores que sempre quis me aproximar de sua obra, mas por coisas e outras da vida essa aproximação demorou. Eis que agora, em plena pandemia e caos social que estamos vivendo me chega às mãos esse box da Editora Autêntica com dois volumes – O conto Patriotismo (traduzida direto do japonês por Jefferson José Teixeira) e um outro com uma pequena biografia do autor, escrita por Victor Kinjo. É uma edição bem caprichada.

Daí então eu comecei a minha caminhada pela obra do Mishima exatamente por seu último escrito. E, já sabendo que a obra do Mishima não é fácil de ler, iniciei esse percurso com o conto Patriotismo, que narra uma cena de haraquiri verídica de um jovem tenente e sua esposa após 21 jovens realizarem um levante contra o Estado e um governo que eles consideravam traidor, episódio conhecido como Incidente de Fevereiro de 1936.

No conto Mishima narra, de forma complexa e com uma linguagem muito poética e teatral (visual mesmo) os poucos meses de casamento entre o tenente Shinji Takeyama e sua esposa Reiko. Nos conta do ritual e das tradições de uma época e de sua cultura. Nos fala da descoberta dos dois enquanto casal e dos ritos diários no lar. E também nos conta do pacto que os dois fazem de se suicidarem, através do ritual do haraquiri, caso ocorresse alguma situação na qual o tenente não conseguisse prosseguir com seus deveres patrióticos.

São pouco mais de 50 páginas e nelas o autor fala sobre gênero, patriotismo, erotismo e morte. Este conto também foi transformado pelo autor em um curta metragem que, ao ser exibido na França e no Japão, fez boa parte da platéia desmaiar. E cá pra nós, não é pra menos. Lendo este conto e suas cenas finais, o relato do ritual do haraquiri é tão minucioso que, mesmo lendo é possível vê-lo.

Mishima é o nome da cidade que fica próxima ao Monte Fuji e o primeiro monte que é possível de ver de lá é o Yukio. Yukio Mishima é o nome artístico de Kimitake Hiraoka, que nasceu em Tóquio em 1925. Foi um grande escritor, sendo indicado por três vezes ao Prêmio Nobel de Literatura. Morou no Rio de Janeiro em 1952 e se encantou com o carnaval. Foi um grande performático que reiterava ou brincava com as regras de gênero, sexualidade e nação na sua escrita. Em 1970, Mishima, com seu corpo esculpido pela musculação e com todo seu ideal masculino de patriotismo e acompanhado de seu suposto amante (ele era casado com uma mulher para manter as aparências), suicida-se em seu último grande ato.

É lógico que esta não é uma leitura leve. Não mesmo. E ainda mais nesses tempos que vivemos. As cenas finais são de fato narradas com uma riqueza de detalhes que arrepia. Mas elas têm uma pulsão erótica envolvida e uma beleza narrativa que me arrebataram. E me fazem, definitivamente, querer mais da obra deste autor.

***

Livro enviado pela editora

Postado em: Resenhas
Tags: , ,

Nenhum comentário em “Resenha – Patriotismo”


 

Comentar