Resenha – Pequena coreografia do adeus
por Juliana Costa Cunha
em 23/07/21

Nota:

Depois da estreia incrível de Aline Bei , no universo literário, com seu O Peso do pássaro morto saber de mais um lançamento da autora é sinônimo de expectativa desde o primeiro anúncio. Aline é uma autora jovem, antenada com a contemporaneidade e com as redes sociais. Usa desses espaços para criar laços profissionais e afetivos com quem a lê. É também através das redes que vai compartilhando um pouco do seu processo de trabalho, de suas pesquisas, dos seus encontros narrativos, o que deve tornar o processo de escrita um pouco menos solitário e, ao mesmo tempo, gera a expectativa em nós leitoras(es), nos fazendo também, parte do processo. O encontro dela com a imagem de capa do livro é um exemplo disso.

Na Pequena coreografia do adeus somos apresentadas(os) a Julia Terra, uma criança por volta dos 7 ou 8 anos que escreve em seu diário seu cotidiano de dores e descobertas. Acompanhamos sua trajetória até um período que não fica muito demarcado no livro, mas que vai até o início de sua fase adulta. A criança, Júlia, precisa lidar com a ausência do pai, separado de sua mãe desde ela muito pequena, e da presença abusiva de sua mãe, atormentada pela separação e sem conseguir lidar com suas dores, replicando em Júlia todo seu sofrer. É uma infância de abandonos e maus tratos, narradas com sensibilidade e poesia. A adolescente Terra, tenta se localizar no mundo. Tenta encontrar suas raízes e ramificar. Sai da casa da mãe para morar só, trabalha como balconista num café e sonha em ser escritora.

Mais uma vez Aline impressiona com sua narrativa em prosa poética, nos fazendo pegar o livro e não querer larga-lo (embora não sejam leituras suaves). Na Pequena a autora também faz uso de recursos textuais como a escrita sempre em minúscula, tendo uma palavra ou outra em maiúscula ao longo do texto quando se refere a algo importante para Julia Terra – um acontecimento ou um sentimento. E, também, o uso de palavras em fontes menores, nesse caso sempre quando Júlia Terra se sente ameaçada ou menor em algum contexto.

Mas o que mais me impressionou neste livro foi a sinestesia e a narrativa escrita de uma forma que me pareceram cenas. Uma narrativa visual, como se tivesse uma diretora ensaiando uma peça com suas personagens. O livro é dividido em dois capítulos, me pareceram, na verdade, dois atos. Ato 1 – Júlia; Ato 2 – Terra. Inclusive, esta foi uma das perguntas que fiz à autora na nossa mini entrevista lá no @coisasqueleio. Dentro de cada ato as cenas foram construídas e demarcadas pelos recursos textuais que citei acima e pelo espaçamento entre as linhas e os trechos. Eu achei isso muito lindo, muito sensível e inteligente. Quem acompanha Aline e suas entrevistas, sabe da relação íntima que ela tem com o teatro. Então, faz todo sentido ter percebido e sentido isso em minha leitura, mesmo que esta seja uma percepção e um sentimento só meus (mas duvido muito!).

Aline Bei nos provoca. Nos inquieta. nos faz refletir, inclusive, sobre achar tão bonito livros que falem de tantas dores. Não há saída fácil depois de ler seus livros. Fica sempre um suspiro, depois do fôlego perdido e um voltar à história na nossa cabeça por dias e dias.

“olha, Senhora, eu

não sou a única

que estou descontente

com os seus Métodos.

queremos reivindicar

isto: o ciclo infinito da finitude

com quem falamos?

há de ter Pessoa (ou Coisa) que mude as regras do

imutável também.

Senhora, por favor, não me vire as costas.

me responda, ao menos isto: na janela de quem

devemos fazer a Revolução?”

p. 92

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Livro enviado pela editora

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