Resenha – Pequenas Grandes Mentiras
por Patricia
em 04/01/16

Nota:

Unknown

Pequenas grandes mentiras é o segundo livro que leio de Liane Moriarty. Conheci o trabalho da autora ano passado quando a Intrínseca enviou para os parceiros o lançamento “O segredo do meu marido“. Enquanto eu abria o livro esperando um chick lit fofo, com humor e algumas cenas dramáticas, o que recebi foi o contrário e gostei consideravelmente de O segredo do meu marido. Por isso, quando vi que a editora havia lançado mais um livro da autora, comprei determinada a não esperar nada especificamente.

Pequenas grandes mentiras é um livro muito parecido com O segredo do meu marido: a história é contada do ponto de vista de mulheres diferentes mas com algo em comum: aqui, são todas mães de crianças pequenas (faixa de 5-6 anos). Acompanhamos principalmente três mulheres: Madeleine que foi mãe jovem e abandonada pelo marido com uma bebê, mas se casou novamente e tem 2 crianças pequenas agora; Celeste, mãe de gêmeos lindos e esposa linda de uma homem riquíssimo, lindo, maravilhoso; e Jane, 24 anos, mãe solteira de Ziggy.

Como na vida de muitas mães, ou ao menos como as pessoas querem acreditar, tudo gira em torno de vida escolar dos filhos: eventos, doações, amizades, intrigas infantis e…nesse caso em particular, assassinato.

Uma linha secundária do enredo é bullying. Ziggy é acusado por uma das meninas da turma de machucá-la e a mãe da menina não vai medir esforços para colocar Ziggy em seu lugar. O lado mais feio do bullying das crianças passa a ser a influência dos pais. A menina vê a própria mãe e suas amigas excluírem Ziggy, proibindo as demais crianças de brincar com ele e isolando-o de festas e reprimindo a mãe do garoto sempre que possível.

Adultos sempre podem ser piores que crianças, vale lembrar.

O enredo principal gira em torno da vida de Madeleine, Celeste e Jane: cada uma enfrentando um problema próprio a portas fechadas; um trauma diferente, mas desilusões e violências comuns (e não seria possível detalhar mais esse enredo sem entregar algumas surpresas infelizes que o leitor deve encarar durante a leitura). Aprendemos sobre elas nos capítulos que se alternam entre as vozes de cada uma. Cada capítulo nos revela um pouco mais do que se esconde por trás das cortinas. Enquanto lia esse livro, só conseguia pensar naquela frase famosa de Tolstoi: “As famílias felizes parecem-se todas; as famílias infelizes são infelizes cada uma à sua maneira”. Moriarty parece que leva essa idéia a sério em suas obras.

Tudo isso é permeado pelo suspense de um assassinato – o leitor é informado disso logo no início do livro – mas descobrimos quem morreu e quem matou apenas nas páginas finais. Toda a história é uma contagem regressiva até o fatídico dia. É uma maneira antiga de se prender o leitor; uma estratégia um pouco passada de aumentar o suspense, mas Moriarty dosa isso bem às vezes. Mas o mais importante, é que em nenhum momento me pareceu que o assassinato se torna mais importante do que a história que ela está contando.

Ainda assim, se estamos falando de criar suspense, Moriarty não é bem uma Gillian Flynn. Há semelhanças, mas há muito mais diferenças. Moriarty cria o suspense apenas como pano de fundo para nos contar a história, o cotidiano de mulheres derrubadas pela vida de várias maneiras enquanto Flynn faz do suspense quase que a ordem principal de seus livros de maneira muito lúcida e com muita capacidade.

Moriarty é uma voz interessante no âmbito das autoras, usando seu espaço para contar histórias batidas, que talvez ninguém mais aguente ler enroladas em algo que vai dar um gostinho diferente, uma roupagem nova a velhos temas – principalmente no que tange a violência contra a mulher – tanto as que são sofridas por homens quanto aquelas que as mulheres inflingem umas nas outras de maneira, muitas vezes, desnecessária e mesquinha. Há diversas passagens no livro com um discurso claro  – e articulado – contra esse comportamento.

O tom final é de união e superação, como em um filme da sessão da tarde. Quando descobrimos quem morre de verdade, o livro pode perder um pouco o ritmo porque acaba por ser um pouco óbvio à medida que compreendemos a história de cada mulher. Fora isso, a obra rende uma leitura boa, que entretém e ainda dá o que pensar.

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