Resenha – Placebo Junkies
por Patricia
em 24/10/16

Nota:

resenha-placebo-junkies-jc-carleson-livro-capa

 

Em 2005 o filme O jardineiro fiel foi lançado com direção de Fernando Meirelles e com um elenco de peso. No filme, o diplomata inglês Justin Quayle é enviado para o Quênia com sua jovem esposa Tessa – uma ativista ferrenha. Tessa é assassinada e, na tentativa de descobrir o que aconteceu com sua esposa, ele acaba encontrando uma cena assustadora: empresas farmacêuticas estavam usando a população pobre e desesperada do Quênia como cobaias humanas para remédios que seriam lançados no primeiro mundo. Tudo indica que ao enfrentar esse sistema, Tessa tenha pisado em alguns calos e isso pode ter levado a seu assassinato.

Esse é um dos meus filmes preferidos. Tanto pelo talento dos atores (Ralph Fiennes e Rachel Weisz) quanto pelo tema que aborda à medida que a história de desenrola. E apesar do filme ter sido inspirado por um livro de John Le Carré – autor britânico que trabalhou para o Serviço de Inteligência Britânico MI6 – este tema não é algo tratado com constância nem pelo cinema e nem pela literatura.

Justamento por isso, o fato de Placebo Junkies trazer este tema para a literatura jovem foi uma surpresa. O tema é polêmico, como não poderia deixar de ser, e é envolto em muito debate sobre direitos, deveres e ética. Aos interessados, recomendo os seguintes textos: Cobaias Humanas da Super Interessante, Quanto uma cobaia humana pode ganhar do Portal E-konomista e O lado real do filme ´O jardineiro fiel´do Jornal GGN.

Placebo Junkies nos apresenta a Audie – uma jovem sem muita perspectiva que decidiu se tornar uma cobaia humana como meio de ganhar a vida. Em suas próprias palavras:

Você não chega aqui a bordo do espress yuppie, sabe? Se você está disposto a vender a pele aqui, há grandes chances de que você provavelmente já a tenha vendido de algum outro jeito, em algum outro lugar.

O livro é como uma viagem pela cabeça de Audie de dezessete anos. Vamos descobrindo sobre quem ela é aos poucos e entre muitas cenas similares dela enfrentando os resultados dos testes aos quais se submeteu. Audie nasceu de uma viciada em drogas e como bebê, teve que lutar a cada dia pela abstinência. Com uma família quebrada, ela acabou largando a escola e se jogou pelo mundo sozinha. Foi quando encontrou esse ‘trabalho’ como cobaia e esse se tornou seu principal meio de sustento.

Há também Charlotte, amiga de Audie que tem uma atitude similar de “dane-se tudo”. Charlotte, porém, tem um plano para sair dessa vida de cobaia: ela pretende se inscrever em todos os testes disponíveis, juntar uma grana e sumir dali. Talvez viajar o mundo. Aquele sonho que todo jovem de 20 e poucos anos tem quando ainda acha que é possível sair de uma situação ruim. Já Audie decide participar da empreitada porque quer levar seu namorado Dylan para um Castelo incrível na Patagônia. Dylan participou de apenas um teste na vida e foi o único sobrevivente do grupo clínico, mas não saiu ileso. Ele enfrenta as consequências de um tratamento de câncer e tem seus altos e baixos. Pelo menos é o que sabemos até certo ponto do livro.

Até que uma tragédia anunciada se abate e Audie decide assumir a identidade de uma cobaia que morreu recentemente. Assim, ela vai tentar burlar o sistema de cobaias para participar do máximo de testes possíveis para ganhar um dinheiro e poder levar Dylan para viajar.

Se o tema poderia ter algo em comum com John Le Carré, a condução da história está mais para Chuck Palahniuk – autor do ótimo Clube da Luta. Em Placebo Junkies, os capítulos variam em formato: posts de blogs, flashbacks, até cenas de um filme amador. Como estamos acompanhando a vida de alguém que já misturou todo tipo de remédio, a história tende a seguir uma linha de desorganização pura, tal como funciona a mente de Audie na maior parte do tempo. Em diversos trechos, principalmente já nas últimas 100 páginas, quando Audie começa a entender algumas coisas da realidade, o livro lembra bastante Clube da Luta e a descoberta que o personagem principal acaba tendo que encarar. Aqui, há o mesmo tom de sonho misturado com realidade.

Há um toque de humor no texto, mas no geral o tom é de tensão e confusão. A leitura flui bem, mas se você espera grandes cenas, já aconselho a procurar outra coisa. Não é um livro ruim, mas não é uma grande obra. A autora ganha pontos por tratar de um tema bem diferente na literatura jovem, mas é um livro que deixa a sensação de que faltou algo. Ou vai ver é exatamente isso que a autora buscava.

Por mais que o tema seja interessante, a condução da história acaba caindo em alguns lugares comuns e não achei difícil de imaginar o final. Uma obra mediana.

***

O livro foi enviado pela editora. 

11mdls0

Postado em: Resenhas
Tags: , ,

Nenhum comentário em “Resenha – Placebo Junkies”


 

Comentar