Resenha – Pontos de vista de um palhaço
por Patricia
em 21/01/14

Nota:

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Li metade desse livro e estava numa dúvida enorme em como seria explicar o enredo.

Pontos de vista de um palhaço está na minha estante há alguns anos e nunca havia me chamado muito alto. Como parte do Desafio Literário do Tigre (estou tentando fazer mais de um livro por mês), resolvi que estava na hora de dar uma chance para esse velho morador de casa.

Primeiro que eu não sabia que Boll era Nobel da Literatura até eu prestar MUITA atenção na capa. Segundo que evitei prestar muita atenção na capa porque não gosto de capa com gente e não gosto de palhaços. Não sei se você é da época, mas lembra de um papo sobre palhaços, kombis e rins roubados? Pois é. Até hoje não posso ver uma Kombi. Se tiver cortina então…

Eu sei o que você está pensando: porque você comprou o livro então? E essa é, de verdade, uma ótima pergunta. Bom, é um livro. Devo ter ficado com dó dele estar na livraria, sozinho. Ou estava de TPM. Ou eu estava de camiseta laranja. Nunca precisei fazer muito sentido para comprar um livro novo…

Mas chega de tentar me redimir por não saber nem quem era o cara e nem sobre o que era o livro. Se você quer saber sobre o livro, tô aqui para ajudar.

Pontos de vista de um palhaço conta a história de Hans: filho de um industrial muito rico e uma mãe muito mão-de-vaca, ele cresce com muitos privilégios em uma Alemanha assolada pela 2ª Guerra Mundial. Sua irmã, respondendo a um sentimento patriótico da mãe nazista, decide ser voluntária na brigada de artilharia antiaérea mas nem chega ao campo de guerra – morre no caminho. Hans nunca mais consegue ter uma relacionamento normal com seus pais. Seu irmão decide estudar teologia e Hans decide….virar palhaço.

Escrito em 1963, é difícil imaginar alguém na Alemanha rindo. Tenta pensar nisso. E talvez esse tenha sido um fator de decisão. Aos vinte e cinco anos – momento em que o conhecemos – Hans acabou de ser abandonado pela namorada – Marie – (filha de um comunista e católica fervorosa ela o troca por outro católico já que Hans parece não crer em nada), se machuca durante uma apresentação e está em uma encruzilhada profissional – uma vez muito procurado, está perdendo shows e experimentando uma decadência antecipada na profissão.

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Hans está muito próximo de passar fome ainda que seja filho de pais ricos. E seu pai no período pós-guerra realmente arrebentou de ganhar dinheiro. Machucado física e psicologicamente, Hans retorna para sua casa em Bonn onde lista todas as pessoas para quem pode ligar e pedir ajuda – tanto financeira quanto para encontrar Marie (logo ele descobre que ela casou com o amante). A cada telefonema sabemos um pouco mais sobre a situação em que Hans se encontra – a maneira como foi abandonado não apenas por Marie mas também por amigos de infância, como ele já recebia críticas fortes mesmo antes de se machucar e como ele perde o tato rapidamente ao tratar com algumas pessoas. Desestabilizado, Hans afasta as poucas opções que restam de ajuda.

Cada vez que eu pensava na Alemanha da década de 60, eu conseguia imaginar o Hans. Ele é uma ótima metáfora para o que o país enfrentava na época – a derrocada econômica, o isolamento ideológico, a confusão religiosa e uma profunda tristeza que nem um palhaço consegue afastar. A questão religiosa, aliás, é muito abordada nas conversas de Hans com padres e fiéis. O próprio autor tinha grande ressentimento do catolicismo por sua relação com o nazismo e o fascismo – um “silêncio sangrento” – e isso fica claro em Hans porque ele simplesmente não aceita os preceitos católicos e se revolta furiosamente quando tentam explicá-los. Talvez seja por isso que ele nunca tenha se casado formalmente com Marie vivendo o que poderia ser denominado como um relacionamento ilegítimo perante a Igreja. Ele expõe também todos aqueles que se colocaram como “salvadores da Alemanha” depois de terem caçado judeus e assassinado tantas pessoas mostrando que a hipocrisia alemã pós guerra era sufocante. Isso fica claro na mãe de Hans, antes nazista, agora ela era membro de um comitê destinado a conciliar conflitos raciais. Porque né?! O importante é estar do lado que está ganhando.

O livro pode ser indigesto em certos momentos por dois motivos: primeiro porque o autor às vezes escreve parágrafos bem longos que parecem intermináveis e o segundo, e mais sério, é que a depressão de Hans quase salta das páginas. Nesses parágrafos longos, o leitor se arrasta junto com Hans. O que, claro, prova que Boll escreve como quem não sabe fazer qualquer outra coisa. Está tudo ali à flor da pele.

É um ótimo livro mas tem que ser lido no momento certo. Apesar de contar a história de um palhaço, não vai te fazer rir. Muito pelo contrário.

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4 Comentários em “Resenha – Pontos de vista de um palhaço”


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Rodrigo Pereira em 28.01.2014 às 09:02 Responder

Gosto muito de tudo que se relaciona a história contemporânea alemã, mas confesso que romances tristes demais me fazem até mal rsrs… Ainda sou adepto do bom e velho “final feliz”. Eu particularmente não conhecia Heinrich Böll, mas por ter ganhado um Nobel acho que vou ler algo dele no futuro 😀

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Paty em 28.01.2014 às 09:11 Responder

rsrs..sou assim também. Livros muito densos eu acabo lendo em um ritmo diferente justamente porque eles mexem com meu humor. Pois é, esse é um autor que conheci “no chute” porque não vejo muita gente falar sobre ele, ainda que seja um vencedor do Nobel. Mas vale a pena, viu?! 🙂

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Janayna em 14.06.2017 às 19:04 Responder

Olá Patrícia, estou desesperada atrás desse livro e não consigo encontrá-lo em lugar nenhum. Você tem alguma ideia de onde eu possa conseguir comprá-lo?

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Patricia em 15.06.2017 às 19:40 Responder

Oi Janayna, olha, dei uma fuçada na Estante Virtual e não achei. Nem no Skoob tem um para trocar. Dei uma olhada na Biblioteca do Exilado para ebooks mas também não tem nada. Achei só um no Livronauta mas está caríssimo; http://www.livronauta.com.br/livro-Heinrich_Boll-Pontos_de_Vista_de_um_Palhaco-Estacao_Liberdade-Balaio_Digital-Porto_Alegre-67219013 🙁
Tem vários sebos que têm perfis no Insta, talvez valha ver diretamente com eles também.
Desculpe não poder ajudar mais….não esperava que o livro estivesse super mega esgotado.:(


 

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