Resenha – Por um populismo de esquerda
por Bruno Lisboa
em 24/08/20

Nota:

Chantal Mouffe é uma cientista política / escritora pós – marxista belga. Autora de diversas obras, sua escrita objetiva, de modo geral, uma crítica / revisão ao pensamento de Karl Marx quanto a luta de classes e as relações do trabalho, pois transcende a visão marxista ao pontuar que questões ligadas a pautas identitárias, ao ecossocialismo, entre outras temáticas de esquerda que deveriam ter papel protagonista na sociedade. E para problematizar essa visão Mouffe escreveu Por um populismo de esquerda.

Mouffe já havia levantado discussões quanto aos caminhos a serem seguidos pela esquerda no elogiado Hegemonia e estratégia socialista, livro escrito em parceria com Ernesto Lacau, onde traz à tona críticas à onda liberal que invadiu a Europa nos anos 80 (como a era Thatcher na Inglaterra). Mas com o recrudescimento do movimento de direita, em nível mundial, Mouffe sentiu que era hora de seguir refletindo a respeito na contemporaneidade.

Lançado em 2018, o livro ganhou edição nacional em 2020 pela editora Autonomia Literária. Por mais que a autora trace a sua análise focada na direita européia, onde a onda populista conservadora varre países tanto em sua forma extremista (a exemplo da Polônia ou Ucrânia), ou em sua forma mais “branda” (Alemanha e França) suas observações podem (e são) especulares ao Brasil de hoje.

Num primeiro momento da obra Mouffe busca problematizar o termo populismo que antes era relacionado aos ideais de união popular, abrangendo toda a sua diversidade (com atenção aos desfavorecidos), mas, na contemporaneidade, o mesmo está relacionado ao conservadorismo, ao nacionalismo e a política neoliberal. Visando combater o último, a autora oferece caminhos à serem seguidos para que possamos ter a esquerda no poder. Mas para tanto, as saídas não parecem ser as mais simples a serem adotadas.

De fato Mouffe, acredita estar no populismo a solução para contrapor a hegemonia da direta vigente, mas para “derrotar o adversário” é preciso que a esquerda compreenda pontos fundamentais a esta luta. E por mais que ela não ofereça tantas respostas a obra não deixa ter sua relevância.

Num primeiro momento a autora faz menção a necessidade de um plano de ação que seja capaz de dar conta das diversas pautas que a esquerda tem como suas (ligadas a questões de gênero, ao meio ambiente, ao socialismo…), mas com a clara intenção de não criar um fim em si mesmas. Para a autora é na integração das lutas que se constrói uma base sólida para a mudança radical.

Outro ponto relevante diz respeito ao fazer democrático. O tema, inclusive, já foi debatido em outra obra de sua autoria (Agonistics: Thinking The World Politically), e diz respeito a necessidade de acabar com a ideia combativa na democracia. Em essência, Mouffe defende que a oposição não deva ser feita como num campo minado onde existe um inimigo a ser eliminado diariamente, mas que a vida em sociedade deva ser conduzida de forma livre, sem a necessidade de imposição de forças ao seu adversário.

Em tempos de polarização política e de pós-democracia, Mouffe urge por uma reposta dos partidos de esquerda que seguem inoperantes ante ao conservadorismo. E para tal fim é necessário uma radicalização da ala progressista na construção de um plano capaz de atingir as demandas da sociedade, em suas mais variadas faces e distinções, para que se consiga construir um povo organizado e capaz de transformar a própria realidade.

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