Resenha – Por uma Revolução Africana
por Patricia
em 05/10/21

Nota:

Frantz Fanon é um nome importante na conversa sobre estudos pós-coloniais e uma voz crítica principalmente na questão França X Argélia. A França foi uma das maiores potências colonizadoras de seu tempo controlando territórios que somavam 110 milhões de pessoas em 1936 (a França, hoje, tem uma população em torno de 67 milhões).

Depois de perder vários territórios do Novo Mundo para espanhóis e ingleses, o país conseguiu manter algumas poucas ilhas no Caribe e diversos países na África. A Martinica era uma delas, sendo, ainda hoje, território francês. Foi aqui que Fanon nasceu: de pai netos de escravos africanos e mãe, um misto de africana e européia. A família era de classe média e relativamente bem de vida e ele pôde estudar em um dos prestigiosos liceus da ilha.

Em 1952, depois de se formar em Psicologia, Fanon publica “Pele negra, máscaras brancas” (lançado no Brasil pela Ubu) em que discorre sobre o impacto psicológico da subjugação colonial na população negra. Ele já havia entendido há muito tempo que o racismo era a base estrutural do colonialismo e notava o quanto isso se embrenhava na população negra tornando-a submissa.

Na Argélia, quando trabalhou como médico em um hospital psiquiátrico, Fanon viu, em primeira mão, a violência colonizadora:

A tortura na Argélia não é um acidente, ou um erro, ou uma falha. Não se compreende o colonialismo sem a possibilidade de torturar, de violar, de massacrar. A tortura é uma modalidade das relações entre invasor e invadido. (pág. 109)

“Por uma revolução africana”, lançando pelo selo Zahar, é um apanhado de ensaios de Fanon. No excelente prefácio assinado pelo Professor Dr. Deivison Faustino, fica claro que organizar a obra de Fanon é mais complicado do que parece. Seus textos (e de outros intelectuais da época) publicados durante a Guerra eram, normalmente, anônimos e existiam em torno de 3 listas diferentes de quais seriam ensaios de Fanon.

Um dos textos mais fortes da obra (um de muitos) é a carta que Fanon envia para o Ministro Francês se demitindo do hospital na Argélia, pois não pode mais apoiar nenhum tipo de esforço francês no país. Logo depois, ele foi expulso do país e, na Tunísia, se uniu às forças pela libertação argelina. Fanon não poupa nenhum lado do espectro político em suas críticas. Direita e esquerda recebem sua parcela de culpa pela desumanização das colônias. Esse é o momento em que não condenar abertamente um regime, é apoiá-lo. Fanon não escondia sua própria raiva em certas situações explorando as inconsistências dos discursos ditos democráticos, mas que defendiam uma democracia às avessas em que o colonialismo se mantinha servindo a uma minoria poderosa.

A Argélia se tornou um país independente em 62, 6 meses depois da morte de Fanon por leucemia. As relações com a Argélia ainda hoje são tão tensas que, em setembro de 2021 (isso mesmo), o Presidente francês, Macrón, pediu perdão aos árabes que lutaram pela França contra a Argélia (em torno de 200.000) por terem sido abandonados para serem massacrados no pós-guerra. Em artigo ao Foreign Policy, a jornalista Michele Barbero atesta que a França de hoje ainda convive com os fantasmas da Argélia.

Dr. Faustino está certíssimo quando explica que:

“Por uma revolução africana” não é apenas um documento histórico, daqueles que nos auxiliam a compreender um tempo e espaço pregressos. Ao contrário, nos oferece elementos vivos para pensarmos feridas ainda abertas e até mais infeccionadas que naquela época. (pág. 31)

É bem impressionante a lucidez com que Fanon via as questões de racismo e colonialismo criticando o sistema, mesmo isto lhe causando problemas profissionais e pessoais. “Por uma revolução africana” é uma excelente introdução a Fanon e ao clamor anticolonialista e antirracista que ainda hoje reverbera pelo mundo.

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O livro foi enviado pela editora.

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