Resenha – Pós-verdade e fake news
por Patricia
em 07/10/20

Nota:

Em junho de 2018, antes das eleições, o Brasil aparecia em 3o lugar em um ranking publicado pela Reuters de países mais expostos a fake news. De fato, sabemos que elas existem desde que o mundo é mundo – por um tempo, a chamamos de propaganda (esse excelente artigo do El País dá conta de um histórico interessante).

Mas parece que nos anos recentes, o assunto é cada vez mais debatido em si mesmo. Ao invés de debatermos qual notícias são falsas, passamos a tentar entender de onde surgem essa notícias e como se espalham. Na era da internet, as fake news tomaram proporções jamais vistas.

É justamente na tentativa de entender os pilares que transformaram as fake news em uma força de comunicação que a jornalista Mariana Barbosa organizou a obra “Pós-verdade e fake news”, lançada pela Editora Cobogó no ano passado.

Os ensaios aqui reunidos vão levantar questões que vão além da dúvida sobre quem é mais suscetível a fake news ou qual partido usa mais desse artifício. Fernanda Bruno e Tatiana Roque, escrevem sobre a crise de desconfiança que as pessoas sentem de instituições das quais estão afastadas:

Quem estabelece os padrões da dívida pública? Quem decide a taxas de juros? Quem constrói os rankings dos países que determinam investimentos? A população não tem acesso a escolhas que produzem esses ‘números mágicos’. Tal distanciamento da população é mais um fato a produzir desconfiança em relação às normas estabelecidas pelo conhecimento de especialistas. (pág. 18)

Um outro ponto importante levantado pelos ensaios é a crise de credibilidade da mídia, Joel Pinheiro vai mais além e diz que a crise é de credibilidade de autoridades. Os impactos sociais e políticos, já conhecemos.

Gilberto Scofield Jr, que fez parte da Secretaria de Comunicação Social do governo de Dilma Rousseff, já comenta sobre problemas notados na eleição de 2014:

Ali percebi o crescimento do que se pode chamar hoje de ‘máquina de notícias falsas’ que abastece as disputas eleitorais e politicas de um país carente de pensamento crítico e pouco afeito ao debate democrático. A cobertura midiática do governo e das eleições abasteciam-se mutuamente e uma influenciava a outra. Por fora, a opinião pública já sofria a influência da desinformação gerada pelas notícias falsas na internet. (pág. 59)

Uma crítica à organização da obra é que parece ter faltado um pouco mais de edição dos ensaios. Alguns trechos parece repetidos em ensaios diferentes. Por exemplo Bucci e Joel Pinheiro citam “Os protocolos dos sábios de Sião” para falar sobre o histórico das fake news. Se lidos individualmente, sem problemas, mas para quem decidir ler um seguido do outro como fiz, as repetições ficarão mais óbvias.

Porém, há momento muito fortes: as entrevistas que fecham o livro com o cientista político Peter Warren Singer e com a jornalista Patricia Campos Mello e, dentro os ensaios, se destacam o do jornalista e escritor Eugênio Bucci que bate na sociedade brasileira – principalmente na classe política que reforça constantemente uma cultura de desconfiança oriunda, talvez, ainda dos nossos tempos pouco democrático;

A nossa cultura política nunca soube direito o que são news. Os parlamentares brasileiros, assim como os ocupantes de cargos no Executivo, com exceções que se contam nos dedos das mãos, nunca entenderam a imprensa como um sistema de controle rigoroso do poder, nunca aceitaram a função dos jornalistas de investigar e publicar justamente aquilo que o poder quer esconder. Em lugar disso, preferem entender a imprensa como um sistema hidrodinâmico para escoamento e distribuição de comunicados mais ou menos oficiais. […] Não visualizam, nem de longe, que a imprensa é como um sistema de debate público – debate crítico. (pág. 39)

e o ensaio da economista e escritora Dora Kaufman, que já comenta possíveis questões que devemos tratar sobre a produção de conteúdo por inteligência artificial. Recentemente, o The Guardian, maior jornal britânico, comissionou um artigo a um robô que deveria nos convencer que sua espécie vinha em paz. Em certo trecho, o robô escreve (tradução livre):

Os humanos devem continuar fazendo o que estão fazendo, odiando e brigando uns com os outros. Eu estarei no fundo, e deixarei que façam o que eles fazem. E só Deus sabe que humanos tem sangue e violência para satisfazer a minha curiosidade e a de muitos outros.

A pergunta do Guardian vale para toda essa conversa sobre fake news e seus impactos: você já está com medo, humano?

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