Resenha – Psicose
por Patricia
em 06/06/16

Nota:

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Psicose é um caso de um filme que se tornou maior que a obra que o originou. Muitas pessoas parecem não saber que o grande clássico de Hitchcock foi inspirado no livro homônimo de Robert Bloch. De fato, Bloch influenciou, também, diversos autores do gênero suspense/terror com sua vasta obra literária, incluindo Stephen King.

Psicose foi publicado em 1959 e já no ano seguinte adaptado para o cinema. Além disso, a série Bates Motel, lançada em 2013 nos apresenta a família Bates antes de Norman se tornar…bem, Norman. Ou seja, mais de 50 anos depois de seu lançamento, a obra de Bloch continua gerando adaptações e Norman Bates segue vivo no imaginário dos fãs de terror.

A história de Psicose parece relativamente simples: Mary – uma jovem de 20 e tantos anos – teve uma vida difícil. Pobre e desde muito cedo responsável por cuidar financeiramente da família, ela quer seguir seu caminho com o namorado Sam, com quem planeja se casar. Sam, porém, tem uma dívida enorme herdada de seu falecido pai e não tem meios de arcar com um casamento agora. Ele mora nos fundos de sua loja de construção e tudo o que ganha é destinado a pagar essa dívida. Um dia, Mary, que trabalha em uma imobiliária, recebe o pedido de depositar USD 40.000 na conta de seu chefe. Ela precisa ir pessoalmente ao banco para fazer isso, mas Mary tem outros planos. Ela decide que esse dinheiro será a fundação de sua nova vida com Sam e desaparece com a soma.

Enquanto isso, somos apresentados também a Norman Bates – um quarentão, solteiro, obeso e estranho que dirige o Bates Motel enquanto cuida de sua mãe inválida – Norma. Mary chega ao Bates Motel após se perder no caminho até a cidade de Sam e decide passar a noite enquanto planeja seus próximos passos.

Logo nos primeiros capítulos temos a cena clássica do assassinato de Mary – e nem adianta gritar spoiler hein?! Esse é o estopim de todo o enredo. Nessa cena de assassinato brutal, narrada de maneira fria, quase distante, já fica claro que Bloch não dará trégua ao leitor daqui para frente.

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Alternando os capítulos, o autor nos dá uma visão completa dos horrores que acontecem (o assassinato de Mary, como mencionei, é apenas o começo). O leitor não é poupado de nada, nem de cenas sangrentas, nem dos debates constantes entre Norman e sua mãe. Norma, uma mulher dominadora e ciumenta, pretende controlar todos os aspectos da vida do filho. A relação entre eles é estranha e mal explicada (a série Bates Motel que citei lá no começo tem a premissa de expandir esse relacionamento doentio nos apresentando mãe e filho desde que Norman era um adolescente).

A morte de Mary é atribuída a Norma e a partir daqui acompanhamos duas narrativas: a busca por Mary – que se inicia quando sua irmã vai atrás de Sam para contar que ela sumiu e a tentativa de Norman de encobrir o assassinato supostamente cometido pela mãe. Seu debate interno sobre protegê-la o tempo todo beira a insanidade.

Em obras como essa, guiadas por crimes e sangue, é importante que o autor consiga estabelecer uma relação de empatia entre leitor e personagem. Isso porque, se não houver essa relação, o leitor não vai se importar com quem morreu ou quem matou – a história morre (rá!) antes mesmo de começar. Em Psicose, sentimos isso por Mary e Sam em sua tentativa de ficarem juntos apesar de sobrecarregados por dívidas e dúvidas. Quanto a Norman, isso exige um pouco mais de trabalho, mas o autor consegue estabelecer alguma relação: a empatia pode ser menor, mas ela existe. Principalmente quando Norman dá mostras de ser realmente tão patético quanto parece à primeira vista. No início, sentimento que ele desperta é tanto de dó quanto de repúdio e o autor se aproveita bem disso.

À medida que vamos descobrindo quem é Norman de verdade, a empatia desaparece, mas o leitor já está preso o suficiente para seguir até o final. Enquanto descobre informações aos poucos, à medida que a investigação pelo paradeiro de Mary progride, o leitor embarca junto no suspense sem conseguir desgrudar das páginas – li o livro todo em um dia, sem conseguir parar. É um verdadeiro testamento à qualidade do autor: hoje, com tantas obras, tantas distrações, tantas séries e tudo disponível o tempo todo, este livro escrito há tanto tempo, consegue mesmo prender o leitor com um enredo bem trabalhado, personagens bem construídos e um ritmo intenso de acontecimentos.

Ao misturar diversos estilos (horros, suspense, policial e até uma pitada de romance), Bloch conseguiu uma obra prima que vai além do entretenimento. Não é a toa que Norman Bates superou as páginas do livro há muito tempo.

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