Resenha – Pureza
por Bruno Lisboa
em 08/08/16

Nota:

Livro-Pureza-Jonathan-Franzen

 

Jonathan Franzen não é para qualquer um. Estranho iniciar um texto crítico desta maneira, mas após terminar a leitura desta cacetada chamada Pureza é praticamente impossível não chegar a esta conclusão.

Para começo de conversa Franzen é um autor descritivo nato, atento a detalhes e minucias que fazem com que suas narrativas, geralmente ligadas a temas contemporâneos e urgentes da sociedade, cheguem à casa das 600 páginas. Seus múltiplos personagens são hermeticamente bem construídos, tendo suas personalidades reveladas e exploradas à exaustão.

Para quem já se aventurou na leitura de alguma de suas obras (inclusive As correções já foi resenhado por aqui) sabe que as características mencionadas nos parágrafos anteriores são habituais/recorrentes a sua escrita e em Pureza não é diferente.

Lançado em 2015, Pureza é um genuíno thriller e tem como personagem Purity (ou Pip, como gosta de ser chamada), garota que vive nos Estados Unidos carregando um dilema pessoal relacionado à dívidas estudantis, com um subemprego mal remunerado e com uma mãe amalucada que por anos a fio nunca revelou à filha suas origens, nem mesmo quem seria o seu pai. Sua vida sofre um autêntico revés a partir do minuto em que é convidada a trabalhar no projeto Luz do Sol, iniciativa semelhante ao Wikileaks, na Bolívia onde a jovem parte em busca de respostas sobre o seu passado velado.

A partir daí, a história, antes centrada na vida de Pip com um grupo de desabrigados, ganha elaboração narrativa à medida em que outros personagens adentram a narrativa. O segmento destinado a Andreas Wolf (coordenador do projeto Luz do Sol) e Annagret (uma jovem ativista feminista) é ambientado, em forma de flashbacks, na Alemanha pós segunda guerra época em que o país era dividido pela metade (oriental e ocidental). Outro segmento que também ganha destaque é a história de Tom Aberrant e Leila Heilou, ambos jornalistas investigativos da publicação Denver Independent.

Por mais que os segmentos e ações sejam aparentemente distantes (fisica e cronologicamente) Franzen consegue amarrá-las muito bem na trama. Numa comparação simples e recente, o feito alcançado aqui pode ser associado a popular trilogia da dor formada Amores Brutos, 21 gramas e Babel, filmes nos quais o diretor Alejandro Inãrritu e o roteirista Guilhermo Arriaga trabalham de maneira semelhante.

Se há uma pequena ressalva quanto a obra, a mesma reside, justamente, nas escolhas temáticas que dão corpo a narrativa. Frazen, como já dito, gosta de colocar como pano de fundo temas contemporâneos ligados a sociedade atual. Mas se anteriormente o autor utiliza, com maestria, de uma microvisão que internalizava bem o ambiente dramático, em Pureza aposta em um olhar globalizado com alusões ao jornalismo independente, ao anarquismo e até mesmo a armas nucleares. Por mais que soe interessante em alguns momentos (e talvez seja um bom caminho a ser seguido em obras futuras), Jonathan opta de maneira errônea em aprofundar por demais cada um dos assuntos, o que acaba por criar certo distanciamento e cansaço ao leitor.

Pureza não é leitura das mais fáceis, pois exige do leitor paciência e perseverança. Mas quem se aventurar terá boa e instigante companhia.

Para 2017 a obra ganhará adaptação para TV (produzida pela canal Showtime) com direção de Todd Field (Pecados íntimos), roteiro do próprio Franzen e Daniel Craig no papel de Andreas Wolf. É esperar para ver.

****

Livro foi enviado pela editora.

 

selo-parceiro_2016-320x230

 

Postado em: Resenhas
Tags: , ,

Nenhum comentário em “Resenha – Pureza”


 

Comentar