Resenha – Quando os livros foram à guerra
por Patricia
em 01/12/15

Nota:

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Como fã e colecionadora de livros fora de controle, ler Fahrenheit 451 foi uma experiência difícil. A idéia de que livros eram queimados e simplesmente desapareciam do mundo foi terrível de imaginar. Era triste pensar que isso poderia ser verdade, ainda mais porque Bradbury é um mestre em fazer com o leitor imagine o que ele está narrando. Livros queimados sempre me pareceram um dos ápices da barbárie (infelizmente, no mundo em que vivemos, a lista de ápices de barbárie tem aumentado com certa constância).

Claro que quando falamos de Hitler, tudo é possível. O mundo que antes parecia apenas uma distopia ganha vida na própria História. “Quando os livros foram à Guerra” da americana Molly Guptill Manning, começa nos mostrando cenas que poderiam ter saído direto do clássico de Ray Bradbury (ou que talvez tenham inspirado a obra): ao chegar ao poder e em uma tentativa de criar uma identidade alemã “pura”,  o Terceiro Reich incitou alunos de escolas e universidades a queimarem todos os livros escritos por não arianos (principalmente judeus e negros) e que tratavam de questões consideradas subversivas. Até mesmo autores alemães como Tomas Mann e Heinrich Mann receberam o tratamento de fogo por seus escritos. (Inspirada nesse livro montei também uma lista de 5 autores alemães e austríacos que figuraram na lista de Hitler na época – sai na 5a).

Estima-se que algo em torno de 100 milhões de livros foram queimados nas fogueiras nazistas. Muito mais do que uma guerra nas trincheiras, Hitler estabeleceu, também, uma guerra cultural.

Depois da ocupação de um país, os alemães tomavam grande cuidado para remodelar os conceitos de cultura, história, literatura, artes plásticas, imprensa e entretenimento daquela nação, numa iniciativa para solidificar e reforçar o poder de Hitler. Frequentemente, as bibliotecas eram o primeiro pilar cultural a ser derrubado. (pág. 26)

Do outro lado do oceano, os soldados americanos começaram a ser recrutados muito antes da guerra chegar a Pearl Harbor. O único problema era que o nível de investimento dos Estados Unidos não foi o suficiente para treiná-los adequadamente e, muitas vezes, tinham que usar madeira entalhada em forma de armas para treinar. Além disso, o tédio era constante nos centros de treinamento isolados.

Se livros podem ser usados para manipular nações inteiras, também podem ser usados para confortar e ajudar (como Nina Sankovitch atesta em O ano da leitura mágica). A solução encontrada pelo governo americano foi usar a oportunidade para resolver dois problemas: a moral dos soldados precisava ser trabalhada e as bibliotecas do Exército estavam em péssimo estado. Organizou-se a maior campanha de arrecadação de livros que o mundo já viu: a Victory Book Campaign.

As guerras são ganhas na mente antes de poderem ser ganhas no campo de batalha, observa Morley. (pág. 50)

Em 1 ano, 10 milhões de livros foram arrecadados para as forças armadas. Mas não foi o suficiente e, assim, livreiros de diversas editoras se uniram para criar a Armed Services Edition – uma comissão que desenvolveu o que seria uma revolução na indústria: livros pequenos o suficiente para que os soldados pudessem carregar no bolso e confortáveis também para que pudessem ler em qualquer lugar.

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Sim, em QUALQUER lugar.

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A história da ASE é o centro de Quando os livros foram à guerra. A inovação dos “mini” livros foi a base fundamental para manter a moral dos soldados – que escreviam à comissão agradecendo o trabalho – e a indústria livreira dos Estados Unidos que até ali vivia de capa dura e, depois da Guerra, investiu pesado em um novo formato de livros – os pocket books.

Esse é um aspecto da guerra que eu desconhecia até agora e foi fascinante descobrir mais que dois temas de grande interesse para mim (livros e guerra) pudessem convergir dessa maneira. Em alguns momentos, porém, a obra parece se estender um pouco demais – senti que se o livro tivesse boas 50 páginas a menos não perderia muito. A autora passa grande parte do início da obra explicando a importância da leitura quando a premissa do livro já exige que o leitor aceite essa ideia logo no começo. Afinal, se alguém comprar esse livro sem esperar que se trate de leitura e guerra, talvez precise de mais algumas aulas de interpretação.

Ainda assim, é uma obra bem pesquisada e um testamento ao poder das historias e a importância de determinadas obras. Se a literatura pode, de fato, mudar vidas, o trabalho da ASE foi primordial nesse momento da História.

A ASE publicou mais de 120 milhões de livros. Hitler, portanto, perdeu essa também.

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