Resenha – Quem tem medo do feminismo negro?
por Bruno Lisboa
em 06/08/18

Nota:

 

“Aqui no Brasil, não existe isso de racismo, tanto é que meu sogro é Paulo Negão e, quando eu vi a filha dele, não queria saber quem era o pai dela”. E ainda “Poxa, essa mulher tá com aliança no dedo, daqui a pouco engravida, seis meses de licença-maternidade…” “Bonito pra c…, pra c…! Quem que vai pagar a conta? O empregador. No final, ele abate no INSS, mas quebrou o ritmo de trabalho. Quando ela voltar, vai ter mais um mês de férias, ou seja, ela trabalhou cinco meses em um ano”.

As frases acima proferidas são de autoria de Jair Bolsonaro, atualmente deputado federal e presidenciável, que só confirmam o quão enraizados estão o racismo e machismo em nossa cultura. Afinal, estes pensamentos refletem o que muitos brasileiros pensam a respeito das minorias sociais. E não é de hoje.  Em reposta a isso, temos em nossa literatura atual um dos melhores exemplares que combatem estas práticas. O nome deste livro é Quem tem mesmo do feminismo negro”, obra da filósofa política Djamila Ribeiro.

Lançado este ano pela Companhia das Letras, o  livro é a segunda incursão de Djamila no universo da literatura e soa como uma continuidade natural de O que é lugar de fala?, sua primeira incursão, que traz à tona discussões pertinentes ligadas ao feminismo e ao racismo.

Em Quem tem medo do feminismo negro?  Djamila inicia a obra a partir de um ensaio para trazer à tona a sua própria história. Com a vida marcada por dificuldades inúmeras, principalmente ligadas a preconceitos diversos, as mesmas serviram como propulsão para que ela superasse e se tornasse referência quando o assunto é engajamento e militância.  Na sequência, o livro reproduz uma série de artigos já publicados pela autora (geralmente retirados da Carta Capital, veículo no qual ela é colunista), trazendo questões sobre a realidade brasileira.

Muitas das situações por ela analisadas na obra foram amplamente noticiadas em suas respectivas épocas, mas sem a devida problematização. E para corrigir esses erros crassos, Djamila cutuca diversas feridas nas mais variadas áreas de forma pungente e direta, seja na área acadêmica, no universo da comédia, no carnaval, entre tantos outros lugares comuns onde o machismo, o racismo e tantos outros preconceitos ainda se fazem valer.

Vivemos tempos em que não deveriam ser tão comuns situações ligadas ao racismo e ao machismo, mas, infelizmente, ambos seguem enraizados na cultura mundial. Mas para aqueles que insistem em reforçar estereótipos antiquados e inadequados, como também os descrentes que não acreditam no poder da mudança, Quem tem medo do feminismo negro? mostra que por mais que tenhamos avançado em muitos aspectos, há muito a ser feito. E nós devemos fazer parte do movimento da mudança.

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O livro foi enviado pela editora.

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