Resenha – Religião para ateus
por Patricia
em 14/09/12

Nota:

Tratar de religião ou a ausência dela é complicado. O assunto é espinhoso. Quem acredita, defende suas crenças com unhas e dentes e quem não acredita, desconsidera tudo o que uma religião apresenta. Alain de Botton tenta fugir desses dois tipos de conclusão e parte para o debate nos pedindo a mente aberta. Não há outra maneira de falar seriamente sobre o assunto e muito menos debater sobre o tema.

“As religiões merecem nossa atenção pela sua absoluta ambição conceitual, por mudarem o mundo de uma maneira que poucas instituições seculares fizeram.”

Alain é filho de judeus que se tornaram ateus tratando a religião com desconfiança e ensinando seus filhos que religião é igual a acreditar em Papai Noel – por um tempo é razoável mas levar isso para a vida faz você parecer ridículo. Seu pai era um bancário que morreu e deixou um fundo de USD 300 milhões para ele e sua irmã. Outra questão interessante é que Alain se auto intitula um autor de auto-ajuda – gênero renegado por muitos leitores e autores.

Mas vamos em frente (tentando com todas as forças não pensar em Paulo Coelho).

O livro é dividido em 10 capítulos abordando o tema sob diversos pontos de vista: sabedoria sem doutrina, comunidade, gentileza, educação, ternura, pessimismo, perspectiva, arte, arquitetura e instituições.

Quanto a comunidade, por exemplo, Alain explica que hoje temos cidades monumentais com tanta gente que o senso de comunidade é estendido – talvez – ao seu vizinho. E só. A verdade é que o senso de comunidade está sumindo e cultivamos uma cultura cada vez mais “cada um por si”. Comunidade, no entanto, é a base de qualquer religião. Quando você participa de uma missa, deve sentir que está ali com um grupo de pessoas iguais a você. Ali, não importa seu cargo, a promoção que você não teve, se você é estéril, impotente, se você tem um casamento infeliz, se seus filhos são horríveis e etc. Nada disso importa porque a oração é a mesma e o senso de comunidade se instala naturalmente.

No capítulo sobre educação, Alain nos explica que há muito a se aprender com as escrituras sagradas. Não apenas sobre História, mas também, na maneira como a religião ensina seus discípulos. A verdade é que aquele que lê a Biblia a conhece quase de trás para frente, memorizando passagens e relendo partes importantes quase sempre. Mas para os não-adoradores, a educação e leitura funcionam de uma maneira diferente. “Nós nos sentimos culpados por tudo o que ainda não lemos, mas deixamos de notar que já lemos muito mais do que Agostinho e Dante, ignorando, desse modo, que o problema está sem dúvida em nossa maneira de assimilar, não na extensão de nosso consumo.”

O capítulo sobre ternura é um tédio só. Debater o apego das pessoas à religião é fácil. Na verdade, a maioria das pessoas se apega à religião por causa de um desespero – às vezes sutil, às vezes escancarado. Então recomendo nem dar muita atenção a esse capítulo que tem um tom auto-ajuda além do normal – e não do jeito bom. Além disso, Alain começa o capítulo com uma “cena” (um homem senta em uma Igreja e bla bla bla) o que é muito diferente do resto do livro.

O livro é permeado de fotos fazendo com que a leitura de um tema pesado se torne um pouco mais leve – apesar de uma foto da Madonna e do Guy Ritchie aparecer também (totalmente desnecessário). O que me fez pensar o quão pop Alain quer ser. (A Revista Época da semana do dia 03 de Setembro – que tem Alain na capa – ajuda a responder um pouco isso: EXTREMAMENTE POP).

Mas vamos em frente novamente.

Acredito que os dois melhores capítulos são Pessimismo e Perspectiva. A verdade é que meu interesse por religiões sempre foi entender como ela funciona – algo que nunca consegui entender de verdade. A questão do pessimismo envolve muito do que cheguei, inclusive, a estudar em ciências políticas – veja só. Um povo que é otimista em sua relação com o Ser Supremo, tende a esperar que coisas boas aconteçam. Tende a fazer o mínimo possível pois há uma recompensa em algum lugar – é o idoso que não toma remédio porque Deus cura, são os pais que não usam contraceptivos porque “seja o que Deus quiser”. Esse otimisto religioso acaba impactando diretamente a cultura e, por fim, a economia.

Não vou entrar a fundo nisso mas há historiadores que acreditam que o resultado econômico das colônias das Américas são desnivelados por um motivo diferente daquele que você aprende na escola. Você deve ter aprendido – quando ainda não podia argumentar – que Estados Unidos e Canadá prosperaram porque foram colônias de povoamento. Os colonos tinham que desenvolver a terra para viver ali. E as colônias do México para baixo, foram colônias de exploração – onde os colonos não se importavam muito com a estrutura em si. Mas isso não é bem verdade. Em essência, a maior diferença entre esses colônias era a religião – porque muitos nativos portugueses e espanhóis vieram morar nas colônias. Os protestantes acreditavam que eles tinham que fazer sua vida dar certo, Deus não dá nada de graça e recompensa os que trabalham. Os católicos, por sua vez, cobravam pelo céu, diziam que era pecado guardar dinheiro e desejar mais do que de tem (avareza). Então aqui está o impacto direto da religião no desenvolvimento econômico.

E perspectiva, nada mais é do que entender que Deus existe para cada um de um jeito diferente. Simples assim. Pode não ser o mesmo, com os mesmos poderes mas com certeza está ali de alguma forma. (O meu é mais parecido com o Batman , por exemplo).

Os capítulos sobre arte e arquitetura são os mais similares a um livro de auto-ajuda do que o resto. Alain aborda a importância da beleza ao nosso redor para nos tornar pessoas melhores e muitos outros mimimis que não vou repetir ou comentar.

A questão central do livro não é SE Deus existe, e sim – para os ateus e aqueles em dúvida – POR QUE o homem sente a necessidade de inventá-lo e reinventá-lo o tempo todo?

O livro é interesse para aqueles que gostam de debater e pesquisar o assunto. A estrutura de capítulos temáticos facilita a leitura e a ordem dos temas flui nauturalmente. Acho que é uma leitura muito válida para quem tem interesse nos mistérios da fé mas ainda não tem certeza de qual caminho seguir. Não espere respostas prontas. O livro talvez aumente suas dúvidas, mas se isso já fizer com que você pense em religião de uma maneira mais aberta, já valeu a leitura.

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2 Comentários em “Resenha – Religião para ateus”


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Graziela em 09.08.2013 às 20:55 Responder

Livro do filósofo e escritor suiço Alain de Botton. Já li alguns livros desse filósofo, mas sem dúvida esse foi o que mais gostei. O livro elenca aspectos positivos das religiões, que normalmente são desprezados pelos ateus. Depois de ler algumas obras do Richard Dawkins, achei que deveria buscar algo mais light e adorei as idéias do Alain, como por exemplo:

“Parece óbvio que as origens da ética religiosa jazem na necessidade pragmática das comunidades primevas para controlar as tendências de seus integrantes e estimular hábitos contrários, de harmonia e perdão. Códigos religiosos tiveram início como preceitos admonitórios, que foram então projetados no céu e refletidos de volta à terra sob formas incorpóreas e majestosas. Ordens para ser solidário ou paciente derivaram da consciência de que essas era as qualidades que poderiam trazer as sociedades de volta da fragmentação e da autodestruição. Essas regras eram tão vitais para nossa sobrivivência que por milhares de anos não ousamos admitir que as tínhamos formulado, a fim de evitar que isso as expusesse ao escrutínio crítico e ao tratamento irreverente. Precisávamos fingir que a moralidade vinha do céu para isolá-la de nossas mentiras e fraquezas ”

De Botton destaca que a intenção dos criadores das normas religiosas iniciais consistia em buscar valores que trouxessem harmonia para suas comunidades.

“Mas, se agora podemos assumir a espiritualização das leis éticas, não temos motivo para jogá-las fora. Continuamos precisando de exortações para sermos solidários e justos, ainda que não acreditemos que exista um Deus que deseje que sejamos assim Não precisamos ser colocados na linha pela ameaça do inferno ou pela promessa do paraío (…). Uma evolução adequada da moralidade desde a superstição até a razão deveria significar o reconhecimento de que somos os autores dos nossos mandamentos morais”.

Esse para mim é um argumento poderoso de Alain, a idéia de que as necessidades de valores éticos persiste, mas que esses devem ser promovidos com base em argumentos diferentes dos utilizados pelas religiões primitivas. Nesse sentido, ele propõe uma reforma da moralidade, com base em pressupostos racionais.

“A tradição religiosa à qual a tabela de estrelinhas de Giotto pertencia sentia-se conforável fazendo proposições detalhadas sobre como alguém deveria se comportar e distinguindo de seu oposto aquilo que claramente definia como bom. Representantes de vício e virtudes eram onipresentes – nas quartas capas de Bíblias, em livros de orações, nas paredes de igrejas e prédios públicos – e seu propósito era didático: ofereciam uma bússola pela qual os fiéis podiam guiar sua vida em direções honradas”.

O autor descreve as formas como a religião cristã difundia seus valores, sobretudo contratando artistas talentosos para decorar palácios e igrejas. Segundo de Botton, as pessoas necessitam ser lembradas constantemente quanto a valores humanitários.

“Simplesmente não ligaremos por muito tempo para os valores superiores quando tudo o que recebemos para nos convencer de sua validade é uma ocasional lembrete em um livro de ensaios, de vendagem modesta e amplamente ignorado, escrito por um suposto filósofo – enquanto nos dominós da cidade, os talentos superlativos das agências do globo praticam sua alquimia fantasmagórica e incendeiam todas as nossas fibras sensoriais em nome de um novo tipo de produto de limpeza ou um salgadinho saboroso.”

BINGO!!

Alain chama a atenção para as dificuldades da educação atual e da cultura da vida atual.

“Nossa peculiar abordagem da cultura transborda da educação para campos relacionados. De forma similar, há uma abundância de suposições suspeitas na produção e na venda de livros. Também aqui somos brindados com muito mais material do que um dia poderemos assimilar e lutamos para nos ater ao que nos é de maior importância.”

“Se lamentamos nossa época inundada por livros é porque sentimos que não é pelo maior número de leituras, mas pelo aprofundamento e revigoramento do nosso conhecimento de uns poucos volumes, que melhor desenvolvemos a inteligência e a sensibilidade.”

“Em seus métodos, o cristianismo tem desde o início sido guiado por uma simples mas essencial observação, que não obstante, jamais causou qualquer impressão naqueles que comandam a educação secular: a facilidade com que esquecemos as coisas.
Seus teólogos sabem que nossa alma sofre daquilo que os antigos filósofos gregos chamaram de akrasia, uma desconsertante tendência a saber o que deveríamos fazer combinada com uma persistente relutância em de fato fazer, seja devido à falta de força de vontade ou à distração”.

“Além de precisarem ser transmitidas de forma eloqüente, as idéias também devem ser constantemente repetidas para nós. Três, cinco ou dez vezes por dia, precisamos ser lembrados à força de verdades que amamos mas que, de outro modo, não somos capazes de respeitar”.

Enfim, um livro que ressalta as inegáveis contribuições das práticas religiosas para o mundo moderno, que precisam ser analisadas e adaptadas ao contexto atual para que sigamos evoluindo individual e coletivamente.

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Paty em 09.08.2013 às 22:10 Responder

Richard Dawkins está na minha lista de leituras…mas eu sei que ele é um ateu mais “barra pesada” e acho que preciso me preparar para ler algo assim. Acho que religião para ateus foi um bom passo para começar esse debate interno que tenho entre crer ou não crer. Tem muito argumento pró e contra a religião e quanto mais leio, mais alimento ambos os lados.
🙂


 

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