Resenha – Reparação
por Patricia
em 17/03/14

Nota:

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Pois bem, Ian McEwan, aqui estamos novamente. Ano passado, iniciei meu caminho pelas obras do autor com o “não tão maravilhoso” Amor sem fim. A leitura do livro não fluiu muito bem ainda que seja inegável que McEwan seja um ótimo escritor. Foi uma questão de falta de química.

Esse ano, como vocês devem saber, estou participando junto com o Ragner e o Thiago do Desafio Literário do Tigre e o tema de Março é: filme ou livro? Aproveitei a chance e tentei um recomeço com McEwan.

Assisti Desejo e Reparação (mando aqui, mais uma vez, um beijo grande para o pessoal que trabalha com tradução de título de filmes. Ficou mais parecendo uma adaptação de um livro da Jane Austen do que qualquer outra coisa. E o mais legal é que o título do livro é apenas Reparação…Gênios!) há algum tempo e tornou-se um de meus filmes preferidos. O filme não só é belíssimo visualmente (James McAvoy) como tem atuações excelentes e, claro, uma história feita para derrubar as barreiras da insensibilidade….porque ficar imune a esse filme é coisa de Coração Gelado (para quem segue este blog e tem menos de 15 anos, essa é uma referência aos Ursinhos Carinhosos).

Mas vamos ao enredo: o ano é 1935 e a casa dos Tallis está se preparando para receber o irmão mais velho – Leon – que está vindo visitar de Londres. Ele deve trazer um amigo junto, Paul Marshall – milionário dono de uma fábrica de chocolate. Ainda temos Cecilia – irmã do meio, recém chegada da faculdade de Cambridge (onde ela recebeu o chamado ‘diploma de terceiro nível’ porque mulheres não recebiam diplomas de verdade na época) e Briony – a irmã mais nova de treze anos que é completamente fissurada em livros e criar histórias. A trupe ainda conta com três primos (Lola de 15 anos e gêmeos de 9) que estão visitando enquanto seus pais estão envolvidos em um escandaloso divórcio.

A matriarca Emily vive com enxaqueca e passa mais tempo na cama do que interagindo com os filhos. Há ainda o jovem Robbie – da mesma idade de Cecilia – que é filho da faxineira e ganhou a confiança do patriarca que custeou seus estudos. Robbie, veja só, também estudou em Cambridge e sonha em ser médico.

Logo no começo temos duas histórias acontecendo em paralelo: Robbie e Cecília nutrem um certo afeto um pelo outro e, do outro lado, a prima Lola é atacada e estuprada. A maneira como as duas se interligam chega a ser surreal, e explicar demais poderia resultar em um gigantíssimo spoiler, mas posso dizer que passa pela imaginação fértil de Briony.

A verdade é que o título do livro te entrega boa parte do sentimento geral: Briony comete uma injustiça que altera para sempre a vida de todos os envolvidos e quando se dá conta disso, já é tarde demais. Ela passa o resto da vida tentando reparar o erro que custou relações de família, levou um homem para a guerra, um inocente preso e um relacionamento que estava começando, mas teve que acabar inesperada e dolorosamente.

Ian McEwan é um autor prolixo: ele vai envolver o leitor em uma teia de aranha que pode parecer que às vezes não terá fim, mas aguarde, há uma luz por ali; as descrições podem ser excessivas em certos momentos mas, no geral, não acredito que seja um crime muito grave porque elas contribuem muito para a imagem se formar na cabeça do leitor – quando feitas corretamente. Claro que temos aqueles autores que falam, falam, falam e você ainda não sabe nem a cor da parede da sala e, descobrimos depois, a sala é totalmente importante!! Esses são os autores que trabalham mais com contagem de palavras no word do que com construção de enredo. Não acredito que seja o caso de McEwan.

O livro é divido em partes onde o foco da narrativa é alterado: na primeira parte temos um misto de pontos de vista mas o centro é Briony; na segunda parte a narrativa é toda feita do ponto de vista de Robbie e a terceira parte volta para Briony. Nessa última, acompanhamos Briony aos 18 e depois ao 77 anos, quando uma revelação intensa muda o que o leitor achava que já sabia.

Esse é um romance do tipo devastador: ele leva o leitor a acreditar em algo e depois muda tudo e tanto uma história quanto a outra pode fazer completo sentido. O leitor quase que tem certa liberdade de ignorar um caminho e seguir por outro (nem que seja uma auto-enganação apenas para conforto próprio já que um caminho garante um final mais alegre e o outro, um terrivelmente triste). O que McEwan criou em Reparação é a ampliação do preceito de que um detalhe muda tudo. É uma bela construção que tem todos os componentes para engajar o leitor do começo ao fim, resultando no tipo de livro difícil de largar.

Conforme a promessa velada do filme, o livro tem “caldo” real para ser uma obra prima por si só. Recomendo tanto o livro quanto o filme que é uma adaptação bem fiel e sincera das palavras de McEwan.

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2 Comentários em “Resenha – Reparação”


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Bia Fonseca em 02.04.2014 às 21:00 Responder

A primeira vez que ouvi falar do filme eu jurava que era algum livro perdido da Jane Austen do qual eu nunca ouvira falar. Dei de presente o livro pra minha mãe, que amou o filme, mas eu mesma nunca li, apesar de todas as resenhas serem super positivas…

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Paty em 02.04.2014 às 21:08 Responder

Eu tbm!!! hahahaha Tanto que demorei certo tempo para entender que o filme era uma adaptação do livro, mas como nome diferente. Quer dizer…o pessoal arrasou mesmo. Mas olha, quando tiver tempo e curiosidade, vale a pena viu?! É lindo. Realmente lindo. 🙂


 

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