Resenha – Rinha de Galos
por Juliana Costa Cunha
em 22/04/21

Nota:

Se o objetivo do Clube Tortilla é deixar suas assinantes sem fôlego, acho que estão indo por um bom caminho. Sem fôlego por que são livros de uma qualidade narrativa incríveis e por que suas histórias são um retrato de uma sociedade que precisa muito se enxergar para, talvez, evoluir.

Há dois meses, foram os furacões de Fernanda Melchor que passaram por aqui e que nos deixaram meio sem prumo. Agora, nos deparamos com uma gama de animais, inclusive o humano, nos contos da equatoriana María Fernanda Ampuero em seu Rinha de Galos que me fez passar horas pensando nas epígrafes do livro.

Nelas, Ampuero já nos dá o tom, lançando mão de uma frase de Fábian Casas – “Tudo que apodrece forma uma família”, e de Clarice Lispector – “Sou um monstro ou isso é ser uma pessoa?” para abrir os caminhos dessa leitura. Estão nestas duas frases as questões centrais dos contos deste livro. A família, com toda sua brutalidade disfarçada de proteção. E a animalidade do ser humano. Se não todos os contos, a maioria deles, trazem animais no enredo. E estes animais são tratados com crueldade pelos humanos, sem que estes demonstrem horror ou asco pelo que fazem. Ou, como convivem com eles. Esta questão vai se somar às relações humanas estabelecidas na convivência familiar. E, da mesma forma, não há demonstração de horror ou asco das personagens pelas atitudes que tomam.

Horror e asco estão presentes em todos os contos. Têm uma relação simbióticas com as histórias narradas pela autora e são muito sinestésicos à medida que lemos as narrativas. Passei todo o livro ou fazendo caretas, ou me arrepiando, ou tendo uma leve taquicardia e penso que esse é o desejo de Ampuero. É como se ela quisesse tratar as histórias narradas com um certo tom de irrealidade, por que a realidade é mais cruel do que podemos imaginar. É a demarcação explicita de que a vida de meninos, meninas e mulheres, em especial, têm algo de horror cotidiano.

As violências físicas são latentes. Mas Ampuero chama a atenção para as violências psicológicas. Aquelas travestidas de cuidado e educação. Aquelas que não são percebidas ou, pior, são percebidas e aceitas em uma sociedade que nega a crueldade de se subjugar pessoas sob o argumento de que ‘é pro seu próprio bem’, como cita a autora no encarte que veio junto com o kit do clube.

Talvez a proximidade do que é narrado em Rinha de Galos com nossa própria realidade, seja o mais chocante. E o horror que foi tomando conta de mim a cada conto, se deva por que identifico esses traços na sociedade brasileira e perceba o quanto a crueldade relatada acontece. É real. Está em qualquer noticiário. E precisamos de alguém que traga um toque surreal para essa realidade para que então, quem sabe, possamos transformá-la.

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