Resenha – Samsara ou noturno em dó menor
por Juliana Costa Cunha
em 26/08/20

Nota:

“[…] – sabe por que?” – é todo dia desde que o mundo é mundo que é assim e não do sonho que viver não tem nada de sonho não tem mesmo mais é de pesadelo desses que a gente acredita até o fim que é verdade e quando acorda é mesmo que não era pesadelo coisa nenhuma – e não é que sempre quando a gente acorda assim de um pesadelo desses não é que a vida é bem pior? – sabe por que? – porque assim diante da vida todo pesadelo não passa de sonho,”

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Ler Alberto Lins Caldas é embarcar numa viagem. É se propor a fazer um exercício de leitura, de interpretação, de percepção e de delírio. Sim, na minha opinião, ou você embarca no delírio narrativo do autor ou você não vai entender (ou tentar entender) sua narrativa e o que ele se propõe a nos contar. O autor já me deixou de queixo caído quando li o A grande morte do conselheiro esterházy também lançado pela Penalux. E, agora, com seu Samsara ou noturno em dó menor, me deixou simbolicamente sem fôlego e em algumas passagens, literalmente.

Esse ficar sem fôlego remete a história narrada em Samsara… mas, também, à forma narrativa adotada por Lins Caldas. Como na citação que abre esse texto, a obra não segue uma pontuação convencional. Os diálogos (feito por apenas uma personagem conversando consigo mesma) estão dentro dos parágrafos, o ponto final não existe (nem o de exclamação ou de interrogação). Os parágrafos podem começar e terminar com um vírgula. Portanto, a cadência do texto somos nós que damos. E, no meu caso, até pegar esse ritmo e conseguir respirar, demorei quase um capítulo. Fui e voltei várias vezes tentando descobrir onde ele, o autor, queria ponto, vírgula, exclamação e etc. Até que desisti disso e deixei minha intuição me levar. E então fluiu que foi uma beleza.

Você pode estar pensando que esse tipo de escrita já é bem explorada, que Saramago, por exemplo, faz isso há muito tempo e tal. E eu vou concordar e discordar. Concordo com o fato de já ser um recurso narrativo bem conhecido e utilizado. Mas discordo ao dizer que esse tipo de recurso é, digamos, mais do mesmo. Primeiro por que é bem difícil escrever assim. E não é todo mundo que consegue e quando consegue, não é todo mundo que faz bem. Segundo por que no caso de Alberto Lins Caldas esse recurso vem junto com a força de seu texto. Com a explosão de suas histórias. Com a densidade do que ele se propõe a narrar e a nos inquietar.

É interessante perceber que essa escolha narrativa do autor tem tudo a ver com a história que é narrada. Um fluxo de consciência forte. Por vezes direto e por outras uma espiral sem fim. Mas sobre o que o narrador fala? A vida e a morte. Suas belezas e suas dores. Nos fala sobre sanidade e loucura. Sobre estar sóbrio ou bêbado. Sobre manter a cabeça no lugar ou perdê-la. Sobre sonhos e desejos. Sobre o que é real e sobre o inexplicável.

Por vezes o fôlego some por que a gente pensa que tá tudo perdido. A narrativa nos leva pro abismo. E aí então Alberto Lins Caldas nos presenteia com trechos belíssimos. De uma poesia que poucos conseguem inserir em textos tão densos assim. Daniel Zanella, editor do Jornal RelevO, no texto que escreve na orelha do livro diz “Samsara… clama ao leitor que aceite o chamado para a jornada. Não se trata de um convite ao leitor de um livro só, mas àquele que aprecia o experimento, o risco, as cores difusas, o diferente.” E eu concordo com ele.

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Livro enviado pela editora

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