Resenha – Segure minha mão
por Patricia
em 21/12/20

Nota:

A historia de Olek começa nas pradarias a noroeste de Kiev, em torno de 1925 quando russos, romenos, ucranianos, búlgaros e húngaros se atracam por qualquer motivo.

Isolados da população e da guerra, a esposa de Olek, Ekaterina, dá á luz um bebê natimorto. Afligida pela dor da perda ela foge de casa. O que ela não sabia, porém, é que junto com o filho morto nasceu uma menina – pequena e delicada e que estava viva. Quando Ekaterina foge, as chances da menina sobreviver diminuem a casa dia.

Olek consulta, então, um mago da região para saber o que fazer. O mago lhe dá uma poção e diz que o último ingrediente é composto das lágrimas de um dos pais da criança. Olek não pode chorar, ele não expressa emoções. Ekaterina precisa, então, ser encontrada para salvar a vida da filha.

Olek se lança pelo mundo em busca da esposa e vai ter que lidar com toda a destruição que acontece atualmente com a guerra em curso.

Apesar da historia que promete muitas emoções, o livro tem uma leitura truncada. Parece que o autor decidiu que, já que Olek não consegue sentir emoção, o leitor também ficará sem. As frases são curtas e acrescentam, em sua maioria, apenas descrições e desconectam o leitor da história. Olek corre com os lobos, mas em algum momento é chamado de “o homem”; Ekaterina foge de casa, mas na descrição, ela é “uma mulher”, como se não fossem os personagens que o autor já nos apresentou.

O homem corre descalço pela planície gelada. Os lobos vão muito à frente e se distanciam por uma baixada; ele desliza em uma depressão e levanta-se. (pág. 19)

A porta se abre. Um lampião gera um espectro amarelado na neblina. A mulher caminha sem olhar para trás e o cão a segue, ainda mancando. No curral, ela encilha um cavalo, monta. Traz outro cavalo puxado a cabresto. (pág. 22)

Tudo isso dá a sensação de ser um roteiro de cinema muito mais do que um livro. Feito para cinema por um autor formado em cinema que, parece, se preocupar mais em descrever o cenário e a cena do que nos demonstrar que emoções devemos sentir.

A primeira cena é de um parto difícil, mas só sabemos disso quando alguém cita uma criança natimorta. Fora isso, acompanhamos cada passo até mesmo do cachorro mas não as dores e o desespero da mãe. A ideia do autor de “dor” é que ela está arranhando o marido, que a ajuda no parto. Ou quando narra um ataque de uma alcateia:

A mão arranhou a terra, até arrancar o capim. Chutou até perder as botas, até que se fendessem as unhas dos pés. Na boca o gosto ferruginoso, a sensação musgosa, lacerações. A testa pressionara a terra áspera e fria, os joelhos marcaram o solo. Abraça os próprios ombros, contraindo-se até sentir que a sensibilidade retornou, nas extremidades. Encontra a faca e recolhe à bainha. Levanta-se devagar, bate os pés no chão. Respira fundo, cerra os dentes e faz o caminho de volta. (pág. 24)

Você pode imaginar a cena de longe, numa tela se apagando, mostrando apenas os contornos. Mas não pode imaginar a dor, a luta, o desespero. Porque nada disso está no texto. Ele é atacado, sobrevive e volta para casa.

Mas melhora um pouco. Há uma nova luta com uma alcatéia e aí, sim, conseguimos entender melhor como ela acontece. Na parte 1 de sua busca (o livro é dividido em 3), Olek é feito refém de búlgaros, apanha, é esfaqueado, foge da prisão, ajuda os russos a cuidar de seus feridos e salva um menino búlgaro da morte. Tudo isso e ele tem apenas cicatrizes e, talvez, alguns ossos quebrados.

Na tentativa de trazer emoção, o autor se vale de algumas figuras batidas. Ser pai é “ter o coração batendo fora do peito” – metáfora usada mais de uma vez. Olek é atacado não sei quantas vezes na prisão por nenhum motivo explicado além do fato de que, bem, é uma prisão e estão em guerra, mas sempre luta até o fim. É o gigante destemido e indomável. Ekaterina é a mulher mais bela do mundo. Dannika, a filha, é tão pequena e delicada que não fala, ela “mia”.

Na parte 2, Olek se recupera da primeira busca e parte para a próxima. Em Kiev, ele espera encontrar Ekaterina que, talvez, ele ouve de alguns poloneses, tenha virado concubina de um major polonês. As cenas se repetem. Bombas, violência, mortos, sangue, fraturas, cicatrizes. Na parte 3, mais uma busca. Bombas, violência, mortos, sangue, fraturas, cicatrizes. Previsibilidade e exaustão de Olek e do leitor.

A busca de Olek é digna, mas o autor não consegue nos passar isso ao se focar tanto no que acontece fora e pouco no que acontece dentro. Olek parece uma máquina mais do que um homem e, em um livro que fala de guerras e família, tirar a humanidade do seu principal personagem é um risco que, aqui, não deu certo. É difícil para o leitor se interessar pela trajetória de alguém que não nos entrega nada.

Poderia ser uma bonita história de amor e superação, mas nada sabemos de Ekaterina e nem de como ela impactou a vida de Olek. Nenhum flashback nos dá um gostinho de quem ela foi. Até o final, só a conheceremos como a mulher que fugiu de casa. O final é previsível e é a parte que o autor melhor consegue trabalhar a emoção de Olek – mas aí estamos falando de 10 páginas em um livro de 240.

Um bom filme de ação. E é isso.

***

O livro foi enviado pela assessoria da editora.

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