Resenha – Sem Filhos
por Patricia
em 02/05/16

Nota:

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O assunto ter ou não filhos é bastante controverso. Apesar de ser algo “natural”, cada vez mais mulheres simplesmente escolhem não ter filhos e vão atrás de outros sonhos. Essa escolha, porém, gera um certo debate e desconforto, já que para muitos (e aqui vou destacar os fundamentalistas religiosos) o papel essencial da mulher no mundo é ter filhos apenas.

Vale já dizer que sou do time das que não desejam filhos. E mais ainda, tenho uma inabilidade nata com crianças além de pouca paciência. Corinne Maier parece ser desse time também, apesar de ter dois filhos. Em entrevistas para a promoção de Sem Filhos, a autora francesa repete com todas as letras o que deixa claro em sua obra: se arrepende de ter tido filhos.

Em Sem filhos, ela elenca 40 motivos para, espero que não seja surpresa, as pessoas decidam não ter filhos. Os motivos são bem variados: dos mais importantes (sua carreira sofrerá um baque) até os mais fúteis (sua vida social vai acabar). O livro tem um senso de humor ácido com tiradas que precisam ser lidas no espírito certo:

Assiste-se, nos dias de hoje, a uma glorificação da maternidade que não teria desagradado ao tristemente célebre marechal Pétain. É a face atual do patriotismo: para encarar uma vida de imbecil é melhor sermos muitos. (Prólogo)

Mas nem só de tiradas sarcásticas se faz um livro e Maier busca um equilíbrio acrescentando alguns pontos realmente interessantes:

O problema é que, na história da opressão dos povos (que se confunde com a simples História), a família  com filho(s) foi um imperativo categórico que muitas vezes andou no mesmo passo que o trabalho. […] O Estado tem pleno interesse na procriação: isso não parece estranho? Já não seria uma boa razão para o questionamento do tal ‘dever cívico’ de contribuição para renovação de gerações? Trata-se, claramente, de uma obsessão demográfica  com a intenção de se preservar uma determinada visão de mundo. (pág. 17)

Todos os 40 motivos propostos pela autora servem para destruir essa noção de que a maternidade é a maior realização na vida de uma mulher. E quando uma mulher resolve falar a verdade, ela acaba por ser execrada – afinal, como uma mulher ousa dizer que não gosta de ser mãe?

Recentemente no Facebook, aconteceu o desafio da maternidade que pedia às mães que compartilhassem momentos felizes com seus filhos. Só que algumas mulheres (e imagino que muitas tiveram vontade mas decidiram deixar o lado ruim para lá) disseram a verdade: “Eu amo meu filho, mas odeio ser mãe”.

O primeiro choque já veio oriundo de alguém falar a verdade no Facebook – uma rede onde a vida ideal é exibida constantemente – todo mundo lindo, saudável, em forma, bem sucedido e com uma família perfeita. Uma das mães argumentou: “colocar meus planos em pausa, não dormir direito, ser cobrada sempre e sempre me sentir errada, morar sozinha com um bebê de 15 meses, estudar sem ter tempo para estudar, ser preterida em relacionamentos, ser abandonada por todas as minhas amigas, suportar sozinha o peso da nossa existência: nada disso me faz feliz.”

O perfil dela foi denunciado e bloqueado no Facebook pouco depois deste post receber diversos likes….e o dobro de ofensas.

***

Maier afirma que a identidade de uma mulher muda quando ela se torna mãe. Muitas deixam de ser conhecida como pessoa, para ser apenas a mãe de X. A mulher passa a exercer um papel coadjuvante em sua própria vida porque tudo deve girar em torno de uma criança. Sua realização de vida está completa e, agora, ela pode abandonar todos os outros planos que fez.

Vale ressaltar que enquanto para muitas mulheres isso não é um problema, para outras é. O debate deve seguir a linha de “cada um deve fazer o que é melhor para si” sem os julgamentos que acompanham aquelas que desejam seguir um caminho diferente. Não ter filhos não é pecado, ter filhos não é pecado. E a escolha final é de cada mulher que terá sua vida profundamente alterada com a chegada de uma criança.

O livro de Maier, porém, não tem interesse nesse debate central. Ela tem uma visão extrema de que as pessoas deveriam simplesmente parar de ter filhos. E apesar de manter sua posição do começo ao fim, a execução de Maier deixa a desejar. Muitas vezes, na tentativa de parecer engraçada, a piada saiu rancorosa e mal feita. Alguns motivos são fúteis demais para serem levados a sério (O filho: um grude; Crianças demais na terra) mas que, se tratados com certa leveza, poderiam ser bem convincentes ou, no mínimo, divertidos.

Acaba ficando na média quando tinha potencial para algo bem melhor.

(E ao argumento de que se todas as mulheres deixarem de ter filhos a civilização acabará, a única resposta possível para mim é: não acho que vamos perder grandes coisas a julgar pelo que temos por aqui agora).

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