Resenha – Simpatia pelo demônio
por Patricia
em 10/10/16

Nota:

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No mais recente lançamento do premiado autor Bernardo Carvalho, temos uma história intrigante, com reviravoltas intricadas e inesperadas. Logo no começo somos apresentados a Rato – carioca que trabalha para uma organização de Direitos Humanos nos Estados Unidos. No passado, sua análise sobre violência – intitulada Tratado sobre a violência – o estabeleceu como um respeitado estudioso e conhecedor do tema. Violência e vulnerabilidade são dois assuntos que irão permear muito mais do que apenas o trabalho de Rato.

Depois de 30 anos de dedicação à agência ele recebe uma missão estranha: deverá partir para o Oriente Médio onde encontrará militantes da jihad local para negociar o resgate de um refém desconhecido. Ele será demitido porque a agência segue o mote original de que não negocia com terroristas, mas esse refém específico parece ser especial e abrirão uma exceção por baixo dos panos, ou seja, a agência não pode ter nenhuma ligação oficial com o resgate. A idéia é que Rato haja “por conta própria” para negociar a libertação do refém.

No país devastado por facções em guerra, Rato se vê sozinho e no centro de uma violência que ele sempre conheceu na teoria. A prática parece ser mais assustadora e ele confrontará isso quando um homem bomba tentar explodir o hotel no qual ele está hospedado. Com o homem à sua frente, sangrando, Rato retorna a um passado recente – rememorando o momento em que sua vida começou a mudar profundamente resultando em sua atual situação.

É aqui que o livro se aprofunda na vida de Rato e nos entrega um enredo completamente inesperado. Enquanto vislumbra a possibilidade de sua vida acabar ali, ele recorda os anos recentes e como se deparou com o demônio na forma de um mexicano que o seduziu. Esse apelido pelo qual o conhecemos, aliás, foi dado pelo mexicano que gostava de ser chamado de “raposa”. Esses apelidos “carinhosos” já deveriam ser um indicativo do estado mental do mexicano que buscava uma presa mais do que um amante. E tratou Rato exatamente assim explorando o limite de paixão e raiva.

As ramificações deste relacionamento afetaram Rato tanto na vida pessoal quanto na profissional. A verdade é que um escândalo iniciado pelo mexicano – a quem Rato passou a chamar de “chihuahua” por despeito – já havia definido a carreira de Rato – ou o fim dela. Ele seria demitido da agência de qualquer forma e, por isso ele era tão perfeito para essa missão quase suicida – ninguém questionaria a demissão.

Bernardo Carvalho é um autor que demanda a atenção do leitor – seus enredos intricados, com uma história dentro de outra história não permite que o leitor fique à deriva. Ele fez isso muito bem também em Nove noites – sobre o qual já comentamos aqui no Poderoso.

Em Simpatia pelo Demônio não há um momento único em que o autor nos entrega um personagem pronto – Rato (e os demais personagens à sua volta) vão sendo construídos pouco a pouco, com cuidado, cada cena agregando ao que achávamos que já sabíamos e, muitas vezes, nos faz repensar o que quer que isso fosse. É uma maneira diferente de criar um personagem mas que, também, parece exigir não apenas mais trabalho e imaginação do autor como exige o mesmo do leitor.

E essa troca resulta em uma diversidade de reações e até certa confusão. Confusão essa que o autor não se sente obrigado a resolver. Ele nos entrega uma história difusa, em que partes podem parecer mais passagens oníricas e há um humor cru em outras sem nenhum motivo aparente. Ao final da obra, podemos não saber exatamente o que vai acontecer com cada personagem, mas fica claro que Bernardo Carvalho não é para leitores fracos. E isso é fantástico.

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O livro foi enviado pela editora.

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