Resenha – Sobre a verdade
por Patricia
em 10/08/20

Nota:

Quem não ouviu falar de Orwell em 2020, não deve estar respirando. Seus clássicos “A revolução dos bichos” e “1984” votaram à lista de mais vendidos, em vários países, e seus ensaios reaparecem como profecias inesperadas dos tempos atuais.

“Sobre a verdade” é um compilado de ensaios e trechos de livros do autor que giram em torno do questionamento da verdade. Por ser um autor recheado de paradoxos, Orwell analisava os discursos para além do que se poderia esperar.

Quando analisa a peça de Orson Welles para o rádio inspirada em “Guerra dos mundos” de H. G Wells, ele não analisa a qualidade da peça em si, mas o fato de que muitos ouvintes acreditaram que os Estados Unidos estavam sendo invadidos por alienígenas. Dos 6 milhões de ouvintes, estima-se que 1 milhão teve alguma reação de pânico. Partindo daqui, Orwell não vai discutir a inocência dos ouvintes, mas o quanto eles partiam do pressuposto de que o boletim de notícias (toda a peça era formatada como esse tipo de programa) deveria ser visto como verídico e como certas mídias andam no limiar do real e da ficção.

Sabe-se que jornais costumam ser inverídicos, mas também que não podem publicar mentiras que superem certa magnitude, e quem topasse com manchetes imensas anunciando a chegada de um cilindro vindo de Marte provavelmente acreditaria no que estava lendo, ao menos durante os poucos minutos necessários para buscar uma comprovação. (pág. 26)

A pesquisa sobre a peça mostrou que as pessoas mais suscetíveis a acreditarem em algo que ouviam sem questionar/verificar eram os pobres, os menos instruídos e, aqueles que enfrentavam problemas financeiros ou eram infelizes no âmbito privado. “A conexão evidente entre infelicidade pessoal e prontidão para aceitar o inacreditável é aqui o achado mais interessante”, explica o autor. “É um estado de espírito que levou nações inteiras a se lançar nos braços de um Redentor”, completa.

Conhecendo as fortes críticas do autor ao totalitarismo, sabemos da lista de prováveis candidatos que passaram por sua mente quando escreveu isso.

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A importância de Orwell e da publicação de um livro como esse é ainda mais relevante em ensaios como “Fascismo e democracia” em que ele trata diretamente das conversas entre defensores / detratores da democracia e de como ela é mais complicada, por conta de quem domina o discurso ou os meios de comunicação.

No dia em que escrevo essa resenha, o Brasil chegou a 100.000 mortos pelo covid-19. Um número espantoso, sob qualquer parâmetro. O Presidente respondeu com um “e daí?” dizendo que morreram e vão morrer pessoas e a vida continua. Diminuir o peso da realidade não deixa de ser uma forma de moldá-la em algo mais palatável para quem não consegue entender sua importância. Afinal, se nunca conheci 100.000 pessoas, como consigo entender o peso de saber que estão mortas?

E não pude deixar de pensar nessa situação do Brasil quando li o seguinte trecho:

Todavia, desafortunadamente, a verdade sobre as atrocidades é muito pior do que o fato de serem deturpadas e usadas como propaganda. A verdade é que elas ocorrem. (pág. 60)

Não podendo omitir os números de mortos (algo que o governo tentou fazer no começo da pandemia), nos resta aceitar comentários sarcásticos de quem deveria nos liderar por uma das piores crises de saúde que o mundo já viu nos últimos tempos.

Omitir dados e fatos é estratégia antigo dos governos brasileiros. Recentemente, a Revista Super Interessante publicou uma matéria sobre como o Governo Militar ocultou a epidemia de meningite que caiu sobre o Brasil da década de 70. O Governo só tomou ação QUATRO ANOS depois do surto, quando o número de doentes ultrapassava 65.000.

Afinal, algum tipo de história vai ser escrito, e depois que aqueles que se recordam da guerra estiverem mortos, é isso que vai ser universalmente aceito. Portanto, para todas as finalidades práticas, a mentira terá se transformado em verdade. (pág. 63)

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O compilado de ensaios trás, também, trechos de “A Revolução dos bichos” (e ensaios sobre a censura que o livro recebeu ao seu declinado por quatro editoras), “O caminho para Wigan Pier”, “1984”, “Na pior em Paris e Londres” e algumas resenhas de obras variadas.

Se Orwell permanece tão atual, não sei se é para se admirar ou se chocar. Talvez ele estivesse mesmo à frente do seu tempo. Talvez estamos vivendo um extensão sem fim do que ele viveu e descreveu em seus escritos. De qualquer forma, ler Orwell ainda nos permite uma perspectiva refrescante em um mundo cada vez mais sombrio.

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O livro foi enviado pela editora.

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