Resenha – Sobre deitar no tempo e esquecer do chão
por Juliana Costa Cunha
em 15/07/20

Nota:

Ausência de saudade
Retornei com um estranhamento⁣
a mesma estrada dos mais de mil dias,⁣
nela me perseguiam um não ser⁣
que, redundante, se casava com um não ter.⁣
Um não ter mais laços com um céu azul⁣
por mais que a embriaguez me levasse a crer,⁣
um não ser mais parte daquele calor,⁣
que me roubou o sono na noite anterior,⁣
o não ter mais liga com as ruas,⁣
que estranhas gritavam solícitos pedidos.⁣
Um não ser de alma,⁣
que nua, não tem mais um vestido,⁣
um não ter identidade, espaço e pertença…⁣
Inúmeros sentidos⁣
Imensas lembranças⁣
uma cidade, nua⁣
sem janelas,⁣
sem portas,⁣
sem ruas.⁣

O que é a arte senão esse emaranhando de emoções? Me peguei lendo este livro da Karla Lima (de título lindo!) e me impactando com sua escrita. Porém quando cheguei neste poema citado acima, parei. E acho que estou nele até agora. Embora ele não fale em nada sobre o nosso momento atual de pandemia e muito menos sobre isolamento social e quarentana, foi sobre isso que ele conversou comigo. E conversa ainda, muito profundamente.

Sobre deitar no tempo e esquecer do chão, lançado pela Editora Penalux, é um livro que fala sobre amor. Como diz o autor Franck Santos na apresentação, “amor ao corpo; ao sol; ao vento; às estações do ano; à chuva; ao mar; às cidades; às pessoas.”

O cotidiano esta presente na poesia de Karla que, neste livro, está dividido em três partes – Errôneas, Efêmera e Etéreas. E nelas, passeamos pelo implícito e por momentos de pura exaltação. Poemas que, como aconteceu comigo, sejam atemporais. O passado e o presente se encontram, se misturam e se separam em meio a grandes silêncios, vazios e algazarras.

***

Livro enviado pela editora

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