Resenha – Sorte
por Patricia
em 09/12/20

Nota:

Na Irlanda do começo dos anos 1800, o que mais existia era fome. E na casa de Margareth a pobreza intensa apenas piorava com o nascimento seguido de filhas. É ela quem narra as primeira duas partes do livro – Início e meio – e explica que seu pai, um católico fervoroso, que se negava até mesmo a papear com vizinhos protestantes, queria filhos (homens) que poderiam ajudar a família. Mas até lá, teve quatro filhas às quais mal dava atenção. Quando vieram os filhos, James e Daniel, receberam tratamento e amor que as filhas não sabiam de onde saia.

Violento e autoritário, o pai buscava algo para que pudesse mostrar seu valor, mas estavam em um país em que “nem a guerra chegava”. Ouviram, então, que haviam terras longínquas que precisavam de homens fortes. Botou a família inteira em um navio com outras 500 famílias irlandesas e deram rumo ao Rio de Janeiro.

No caminho, Margareth conhece Orlando, um jovem médico irlandês que está vindo ao Brasil para apoiar os missionários. É naquele navio sujo em que sua mãe morre aos poucos que ela conhece alguma felicidade. Margareth atraca em terras brasileiras grávida, mas se mantém em silêncio ante a novidade.

Ao chegarem aqui, James e Daniel são levados por militares para a Cisplatina para lutarem pelo país – a contrapartida exigida para abrirem as fronteiras a esses estrangeiros que mal falavam a língua. Sem seus filhos, o pai mantém a violência ativa em casa. O pouco alento de Margareth é a escrava Mariava que mostra que a violência para mulheres é constante e vem em formas variadas.

São várias cenas tristes que levarão Margareth a um convento no qual deve se livrar da vergonha que trouxe à sua família. Ali, ela conhecerá outras jovens cujo ventre em crescimento nem sempre é fruto de amor.

O primeiro romance da mineira radicada na Inglaterra, Nara Vidal, não chega a 100 páginas mas seu impacto e potência são inegáveis. Em poucas páginas, ela conseguiu mostrar extremamente bem como a violência – seja por ordem de Deus e pelas mãos de freiras ou pela estrutura política patriarcal – era a única constante com que mulheres imigrantes pobres e escravas podiam contar, reforçando seu baixo valor na sociedade da qual, por força, agora faziam parte. A falta de voz ativa nas próprias vidas e a maneira fácil com que tudo lhes era arrancado é retratado de forma direta, sincera e, ainda assim, com certa leveza. É um equilíbrio difícil quando se está contando uma história tão densa e forte.

“Sorte” ficou em terceiro lugar no Prêmio Oceanos em 2019 com muito mérito e uma promessa de uma romancista de mão cheia.

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