Resenha – Temporada de Furacões
por Juliana Costa Cunha
em 22/02/21

Nota:

Em um canal de irrigação de La Matosa, é encontrado o corpo de uma pessoa esquartejada. Quando identificado, verifica-se que se trata do corpo daquela que é conhecida como “A Bruxa”, figura que faz beberagens para fins abortivos e de relacionamentos. Ela também é procurada por aquelas pessoas que querem melhorar na vida e outras questões da existência humana. A Bruxa foi assassinada e localizada pela polícia que se incumbe de desvendar o crime.

Temporada de furacões é um livro que vai exigir fôlego de quem o ler. Tanto por seu enredo quanto pela forma narrativa. Fernanda Melchor faz de cada capítulo um furacão, em um parágrafo único de tirar o fôlego. A ideia é ler sem parar. É ler e entrar no rolo compressor que é a vida de cada uma das personagens criadas pela autora.

A bruxa é aquela personagem que vai se revelando aos poucos, mas pela voz dos outros. Sua história é narrada através do depoimento das demais personagens do livro e que, de alguma forma, se envolvem no crime.

Ela vive numa casa imunda, precisa aparecer sempre com véus no rosto, todas as pessoas a descrevem como uma figura grotesca e, para ter um pouco de diversão, ela precisa ir para o subsolo de seu barraco e viver lá suas fantasias. La Matosa é um lugar onde as pessoas não têm voz, mas estão na luta cotidiana pela existência, onde a Bruxa é ainda mais invisibilizada.

As histórias que se entrecruzam no livro, são histórias de profunda desumanização. Cada personagem está ali lutando por sua sobrevivência, mas não têm direito de existir. As mulheres são exploradas e violentadas. Os homens tentam assumir os papéis que a sociedade lhes impõem, mas sem sucesso. Há uma opressão de gênero e de sexualidade em todo o livro. O prazer está sempre associado a dor e violações. Em La Matosa “há uma dor pungente que se nega a dissolver”.

Este é um daqueles livros que se você não fizer uma leitura do todo, não vai conseguir encontrar pontos de empatia com as personagens.

Eu li este livro aos poucos e sinceramente acho que foi uma pena. Porque a narrativa circular, e quase sem pontos finais, indica uma leitura contínua, pelo menos de cada parágrafo. Eu também comecei a leitura tendo muita raiva e agonia com as personagens, até que passei a prestar atenção no contexto de tudo, em todas as ausências vivenciadas e, então, passei a olha-las com mais cuidado e empatia. A exceção é a personagem Pepe. O capítulo que ele surge é narrado por Norma, uma menina de 13 anos, que acaba fugindo da casa da mãe para fugir dele e de todos os abusos sofridos, mas ainda assim carregando uma culpa gigante.

Melchor nos propõe um livro que é puro relato social. Que se passa no povoado fictício de La Matosa, mas que, infelizmente, pode acontecer em qualquer lugar onde a miséria existe. Onde a luta pela sobrevivência de pessoas invisibilizadas é imperativa.

Um livro incrível, que chegou até nós através da assinatura do Tortilla – clube de livros dedicado à literatura hispânica e que a gente tá adorando e indicando loucamente. Tem um EP no Podesora Rede todo dedicado a ele. Dá um confere também.

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